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“Por Cristo prontos a sofrer”

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“Com valor! Sem Temor! Por Cristo prontos a sofrer! Bem alto erguei, o Seu pendão, firmes sempre até morrer.” Este é o refrão do hino que fechou o culto especial do domingo, lembrando da igreja perseguida. Esta data foi criada para nos lembrarmos de irmãos espalhados pelo mundo que sofrem por confessar o nome de Cristo. Antes do hino havia acontecido uma pequena encenação em minha igreja, mas, o que me deixou em crise foi a letra de “Pendão Real”. O refrão deste hino é uma antítese do que se prega atualmente na maioria das igrejas evangélicas no nosso país.

Confesso que ao cantar essa música me senti constrangido. Tanto ao pensar nos milhares de irmãos que vivem em locais onde se dizer cristão é uma pena capital quanto ao lembrar-me das pessoas que padeceram pelo Nome história do Cristianismo. A célebre frase de C.S. Lewis, “se você está à procura de uma religião que o deixe confortável, definitivamente eu não lhe aconselharia o cristianismo”, não reflete o cristianismo mainstream de nossa era. Se não se aceita nem sofrer as agruras da vida cotidiana por ter “a marca da promessa”, o que dirá sofrer pelo Evangelho. Fico em dúvida se temos um problema de desconhecimento ou se realmente ignora-se a História do Cristianismo. Sim, pois o sofrimento por Cristo e o dedicar-se de alma ao nosso Senhor sempre foram marca de nossa História.

O que dizer da parte final do texto de Atos 5? “Os Apóstolos saíram do Sinédrio, alegres por terem sido considerados dignos de serem humilhados por causa do Nome.” Os Apóstolos haviam sido presos por pregar o Evangelho. Levados ao Sumo Sacerdote foram interrogados e libertados depois da intervenção de Gamaliel, depois de serem açoitados. A reação não foi de indignação com Deus por permitir que eles sofressem. Tampouco reclamaram com os soldados por estarem “tocando nos ungidos” ou reivindicaram os seus direitos como filhos de Deus. Não. Alegraram-se, pois estavam sofrendo por Cristo, por aquele que os libertou das trevas e os trouxe para a luz.

E quanto a Paulo, o grande evangelista dos gentios? Poderia exigir algo das igrejas que ele plantou. Ou poderia, depois de prisões, torturas, naufrágios e perseguições, preferir gozar o final da vida em paz, colhendo os louros da autoridade que tinha sobre os cristãos gentios. Pelo contrário, já em sua derradeira prisão, indo para a morte, escreve a seu filho na fé Timóteo: “Lembre-se de Jesus Cristo, ressuscitado dos mortos, descendente de Davi, conforme o meu evangelho, pelo qual sofro a ponto de estar preso como criminoso; contudo a palavra de Deus não está presa. Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus, com glória eterna.” Nosso cristianismo lembra o dele?

O sofrimento não foi exclusivo dos Apóstolos. Quando estava a caminho de Roma para ser julgado, Inácio de Antioquia escreveu uma carta à igreja local. Pedia ajuda? Pelo contrário, pediu para que não impedissem que fosse martirizado. Escreveu: “Sou trigo de Deus, e os dentes das feras hão de me moer, para que possa ser oferecido como pão limpo de Cristo.” Um fim semelhante teve Policarpo de Esmirna. Em seu julgamento final o procônsul Antonio Pio chegou a lhe oferecer clemência por sua idade avançada, contanto que negasse o nome de Cristo. Sua resposta? “Eu tenho servido Cristo por 86 anos e ele nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou? Eu sou um crente.”

Talvez por vivermos num contexto totalmente acolhedor a qualquer fé tenhamos dificuldade de entender estes homens e de nos colocarmos em seus lugares. Não hesitamos em dizer que Cristo é tudo para nós e nem pensamos antes de afirmar que topamos qualquer coisa por Ele. Será? Um dos pais apostólicos da Igreja, Tertuliano de Cartago, dizia que “O sangue dos mártires é a semente da igreja.” Estaríamos dispostos a contribuir dessa forma na seara? Difícil saber vivendo no nosso contexto. Vivemos um cristianismo tão confortável onde qualquer obstáculo é chamado de perseguição. No nosso país o cristianismo inspira feriados como o desta semana. Até a novela das 9 terá uma protagonista “evangélica”. Há liberdade para usar as mídias para levantar o pendão (bandeira) de Cristo. Mas, usa-se apenas para pedir dinheiro, atacar os gays, exaltar ”homens de Deus” e criar o lucrativo mercado Gospel. Somos mais de 40 milhões de Evangélicos no Brasil, o segmento religioso que mais cresce nos últimos 20 anos. E no que isso tem refletido? Que bandeira nos caracteriza? Os primeiros cristãos receberam esse nome por parecer com Cristo. E nós? Parecemos com quem?

Por vezes temo que a única maneira da igreja evangélica brasileira se tornar realmente luz em nossa nação é ser perseguida. Sair dessa zona de conforto obtida por ser uma “tendência” do momento para ser uma real contracultura. Temo que seja hora de sermos obrigados a realmente sofrer por Cristo, a precisar de coragem vinda dos céus para professar nossa fé. Espero estar errado, mas, creio que o único meio de o Evangelho deixar de sofrer por conta dos evangélicos é os evangélicos precisarem sofrer pelo Evangelho verdadeiro de Jesus Cristo.

Soli Deo Gloria

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