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Pensamentos sobre a Teologia Reformada (ou preconceito gera preconceito)

Tenho lido e ouvido uma série de opiniões sobre a Teologia Reformada. De odes de adoração que a colocam como salvadora do mundo a críticas que a colocam como uma ideia ultrapassada, elitista e segregacionista. Cá entre nós, nós Reformados temos contribuído pra muito do preconceito que nos cerca. Inclusive destilando nosso preconceito contra os que pensam diferente. Quero aqui colocar alguns pontos que creio que podem ajudar na busca por um tão importante equilíbrio. Farei a exposição por tópicos. Como diz o próprio título, isso nada mais é que uma série de pensamentos transcritos.

Predestinação: Para muitos aqui está toda a razão e sentido do Calvinismo (ou da Teologia Reformada). O problema é que muitos desses se intitulam calvinistas… Ledo engano. A doutrina da eleição/predestinação nunca foi o principal foco nem de Calvino, nem dos reformadores de sua escola nem de reformados propriamente ditos. Essa doutrina nada mais é que uma das consequências do que é sim o foco da Doutrina Reformada: a soberania de Deus. A célebre frase do pensador holandês Abraham Kuyper define bem esse pensamento. “Não ha nada na existência humana que. Cristo não possa dizer: É MEU”. Logo, infere-se logicamente que a Salvação também é uma prerrogativa executada e definida por Deus. Ele soberanamente decide quem Ele salvará. Com que critério? Seu amor. Por que uns e não outros? Aí, honestamente, não tenho nem ideia. No meu caso posso dizer que se Ele não tivesse me escolhido eu teria sérios problemas, pois eu certamente não O escolheria.

 Obsolescência: Outra crítica muito difundida é que o pensamento reformado é obsoleto, que não é mais relevante ao nosso tempo. Se aceitarmos que Aristóteles, 1800 anos distante da Reforma, pode ser relevante até hoje, não faz sentido taxar assim o pensamento reformado. Inclusive, uma pesquisa recente da revista Times coloca o Calvinismo entre as 10 ideias que estão mudando a cultura dos Estados Unidos. Novamente o preconceito é bastante influenciado pelo comportamento de alguns “reformados”. Práticas que faziam sentido há quase 5 séculos não têm como fazer sentido aos nossos tempos. Porém, o conceito era tão a frente de seu tempo que não tem como ser classificado de obsoleto. O incentivo ao desenvolvimento científico e artístico à parte do controle da Igreja é um dos pontos que a humanidade deve aos reformados. O estado Laico (em seu sentido verdadeiro, distorcido nos dias de hoje) também. A educação teve uma evolução sem precedentes como a preocupação em alfabetizar a todos para que pudessem ler a Bíblia. Política, direito, linguística e outras tantas áreas do pensamento também foram altamente influenciadas. O Cristianismo, evidentemente, foi o maior beneficiado. A volta ao foco de doutrinas fundamentais, como a justificação pela fé e a supremacia de Cristo e o resgate da importância das Escrituras foram fundamentais para uma retomado ao Evangelho de Cristo. E esse era o foco. Não criar uma nova teologia, mas, resgatar as verdades que haviam sido esquecidas nas Escrituras.

 Arrogância: Se há algo que não faz o menor sentido para um reformado é a arrogância. Se for manter a coerência com a tradição monergista, que entende a total dependência do homem para poder ter qualquer relacionamento com Deus, um reformado jamais poderia se arrogar de seus méritos religiosos. Evidentemente, não é bem isso que se vê. Um salvo só pode ter entendido realmente a profundidade do que houve com ele se, em profunda humilhação, questionar sempre a Deus: “Por que eu Senhor? Por que logo eu”. Entender que não só a salvação é uma obra exclusiva do Deus Trino, mas também o conhecimento real desse Deus é algo fundamental para a fé reformada. E de que se arrogar se não se tem mérito? O pedinte não tem mérito por esticar o braço pra receber sua refeição de um benfeitor. Quanto mais nós que em relação a Deus estamos num estágio bem inferior ao de pedintes. É evidente que muitos se orgulham de serem eleitos e de conhecerem a verdadeira doutrina. Se não tenho nenhuma capacidade de julgar o primeiro caso, posso garantir que o segundo certamente é mentira. Não, não tem como entender verdadeiramente a obra de Deus e se manter arrogante.

Intelectualismo: De certa forma esse item tem muito a ver com o anterior. De fato os reformados tem uma fama de serem mais intelectualizados. Há varias explicações para isso. Primeiro que há muito mais literatura consistente escrita por reformados que por outras matrizes protestantes. Além disso, as doutrinas reformadas são mais sistematizadas e consistentemente apresentadas que a da imensa maioria de outras matrizes protestantes. Um exemplo é a doutrina pentecostal que acaba sendo associada a movimentos que não tem nada a ver como seus pensamentos pela falta de uma declaração de fé mais clara. Fique claro que não estou querendo dizer quem está correto e sim quem tem mais consistência. Há, também, o lado socioeconômico, preponderantemente no caso brasileiro. Igrejas presbiterianas, batistas particulares e outras que seguem a linha reformada tiveram uma penetração muito mais forte nas chamadas classe média e alta que os pentecostais, por exemplo. O acesso a estudo em um país desigual como o nosso é diretamente proporcional com a renda do cidadão. Isso tem mudado e vemos não só uma diminuição das diferenças sociais no país como uma sensível mudança desses padrões econômicos das denominações. Logo creio que esse problema mudará. O que digo para muitos arminianos que conheço ajudaria a mudar um pouco o cenário: Parem de reclamar e produzam literatura de boa qualidade. Temos gente boa demais no meio arminiano como Alvin Plantinga, Roger Olson, Jorge Pinheiro. Seria deveras valioso para o debate que tivéssemos um contraponto! E sim, lemos outras linhas de pensamento! Lemos tantos os acima relacionados como os irmãos Wesley, luteranos, neo-ortodoxos. (E até alguns liberais… hehehe)

Acho que pra um rascunho já tem bastante coisa. Um dia volto ao tema. Creio que nós reformados merecemos esse preconceito que nos é dirigido pelo modo preconceituoso que muitas vezes tratamos outros irmãos. Que nada mais são que isso; irmãos. Enquanto o que nos une for mais forte que o que nos separa, não há motivo para um pensamento sectário. Defender a fé é algo fundamental, mas, pode virar um ídolo se não houver cuidado. Tem sido valioso para mim conviver com alguns pentecostais. Vejo que muito do que pensava sobre eles era totalmente descabido. Vejo, inclusive, o quão longe estão desse lamentável mundo neopentecostal, cujo nome é uma ofensa aos pentecostais históricos. Precisamos sentar mais à mesa e conversar sobre nossas diferenças. Não só diminuirá nossos preconceitos como será de grande valia para a Igreja de Jesus Cristo.

Soli Deo Gloria

 

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