Arquivo do mês: outubro 2013

Uma carta a Lutero

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Caro Lutero,

Por força do hábito ia começar perguntando se está tudo bem. Mas, lembrei que você está na Glória, com o Pai. Certamente está… Por aqui é 31 de outubro e estamos comemorando o Dia da Reforma. Por isso te escrevo, para agradecer sua coragem e determinação na luta pelo verdadeiro Evangelho. Sim, eu sei que nada disso ocorreria sem a Graça de Deus. É evidente que ele te escolheu, capacitou e iluminou para que fizesse isso. Evidentemente, também, outros homens, como Jan Huss, John Wycliff, Girolamo Savonarola e outros abriram o caminho para o que você iniciou lá em Wittenberg. Mas, não seja modesto; sua contribuição foi fundamental.

Bem, admito que não tenha notícias muito boas daqui. Alguns “protestantes” não entenderam bem o que você e os outros reformadores propuseram. Digamos que Johann Tetzel seria um amador perto deles… Voltaram a vender o Evangelho, amigo. Por bênçãos, cura, prosperidade… Muito tempo depois de sua partida inventaram a TV. Basicamente, é um aparelho que transmite som e imagem para qualquer lugar. Não tem ideia do que estes caras fazem para poder aparecer nela. Enquanto há irmãos sofrendo, passando necessidades, há líderes da igreja esbanjando muito dinheiro. Inventaram o trízimo! O nome indulgencia foi abolido, mas, o conceito não. E não estão muito interessados no tilintar da moeda. Querem muito mais que moeda. Muito triste.

Sei, também, que era um grande músico. Pois aí temos outro grande problema dos nossos tempos. É lamentável como a maioria das músicas ditas cristãs de hoje nada refletem da Graça de Deus. Só pedem. São músicas centradas no homem. Sei que teve uma discussão com Erasmo de Roterdã sobre o humanismo dele. Creia, perto do que temos hoje, ele nem era tão ruim assim. E a qualidade musical? Terrível! Inclusive o pessoal não tem gostado muito de seu lindo hino Castelo Forte. Primeiro acham muito “parado”. Não dá pra pular, pra dançar… Segundo, há um grande problema com aquele trecho que diz: “Se temos que perder; família, bens, poder. Embora a vida vá. Por nós Jesus está”. Dizem que isso não é um discurso de um cristão. É muito derrotismo. Dizem que você tinha é que ter declarado a vitória! Ter determinado que Deus te desse tudo. Afinal, crente que é crente não sofre… Sim, irmão Lutero, o pessoal tem cantado isso. Adoram pedir pra Deus restituir de volta o que era deles. Até acho que Deus deveria fazer isso mesmo. Restituir a perdição antes de Cristo. Sorte deles que o Pai é amoroso…

Lembro que lutava contra o fato do Papa ser um ser superior aos outros crentes. Pois bem, acredita que no meio “protestante” temos algo parecido com o Papa? Sim, temos apóstolo, paipóstolo, arcanjo… O que tem de homem tentando usurpar a glória de Deus é uma enormidade. Comportam-se como se fossem o único elo entre Deus e os fieis. Arrogam para si uma condição de infalibilidade. Sacerdócio universal dos crentes? Jamais! Eles querem fazer o povo pensar que sempre precisarão deles. São absolutamente autoritários e tirânicos. Ai de quem discordar deles. E estão em todas as denominações. Ah, me esqueci disso. Nos dividimos em várias denominações. O protestantismo não tem a menor unidade. Brigamos por forma de batizar, de tomar a ceia, de usar os dons.  É feia a coisa aqui, amigo.

Tenho, também, más notícias de sua terra natal e de sua igreja. Foi lá que surgiram os principais expoentes de um movimento que busca diminuir a autoridade da Palavra de Deus, transformar a Bíblia num mito, diminuir os milagres de Cristo e, acredite, diminuir até a importância do sacrifício vicário de Jesus. Segundo eles, nós que acreditamos na veracidade dos fatos bíblicos somos inocentes que não entendemos nada… Parece que este movimento perdeu força, mas sempre arruma algum jeito de voltar. Se aqui ainda estivesse, seria chamado de fundamentalista…

Porém, caro irmão, embora temos todos estes problemas, há muito que comemorar. Vemos muitos e muitos jovens se voltando à sã doutrina, querendo resgatar aquilo que você já havia resgatado no seu tempo: a verdadeira mensagem do Evangelho. Até em sua querida Igreja Católica (sim, sei que o que realmente queria não era uma separação e sim uma mudança de rumos) vemos pessoas buscando as doutrinas da Graça. Depois de você muitos homens e mulheres de Deus vieram e lutaram bravamente para que o Evangelho de Cristo fosse retomado. O invento de Gutemberg prosperou. Hoje é fácil achar livros sobre o nosso Deus. E a Bíblia, então? Fala-se que a temos em 2.250 idiomas! É o livro mais vendido na História. Seu sonho de coloca-la ao alcance de todos é uma realidade. Glórias sejam dadas a Deus!

Por enquanto é isso, amigo. Quem sabe logo te escreva contando novidades melhores. Um dia nos conheceremos pessoalmente. Espero que, no tempo aqui da Terra, demore um pouquinho… Mande um abraço para o pessoal aí. Pra Melanchton, Zwinglio, Calvino, Bucer, Beza, Farel, Knox, enfim, pra todos esses pedreiros da Reforma. Somos gratos ao Pai pela vida de vocês. Continuem com Deus!

Um grande abraço!

André

Soli Deo Gloria

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Pensamentos sobre a Teologia Reformada (ou preconceito gera preconceito)

Tenho lido e ouvido uma série de opiniões sobre a Teologia Reformada. De odes de adoração que a colocam como salvadora do mundo a críticas que a colocam como uma ideia ultrapassada, elitista e segregacionista. Cá entre nós, nós Reformados temos contribuído pra muito do preconceito que nos cerca. Inclusive destilando nosso preconceito contra os que pensam diferente. Quero aqui colocar alguns pontos que creio que podem ajudar na busca por um tão importante equilíbrio. Farei a exposição por tópicos. Como diz o próprio título, isso nada mais é que uma série de pensamentos transcritos.

Predestinação: Para muitos aqui está toda a razão e sentido do Calvinismo (ou da Teologia Reformada). O problema é que muitos desses se intitulam calvinistas… Ledo engano. A doutrina da eleição/predestinação nunca foi o principal foco nem de Calvino, nem dos reformadores de sua escola nem de reformados propriamente ditos. Essa doutrina nada mais é que uma das consequências do que é sim o foco da Doutrina Reformada: a soberania de Deus. A célebre frase do pensador holandês Abraham Kuyper define bem esse pensamento. “Não ha nada na existência humana que. Cristo não possa dizer: É MEU”. Logo, infere-se logicamente que a Salvação também é uma prerrogativa executada e definida por Deus. Ele soberanamente decide quem Ele salvará. Com que critério? Seu amor. Por que uns e não outros? Aí, honestamente, não tenho nem ideia. No meu caso posso dizer que se Ele não tivesse me escolhido eu teria sérios problemas, pois eu certamente não O escolheria.

 Obsolescência: Outra crítica muito difundida é que o pensamento reformado é obsoleto, que não é mais relevante ao nosso tempo. Se aceitarmos que Aristóteles, 1800 anos distante da Reforma, pode ser relevante até hoje, não faz sentido taxar assim o pensamento reformado. Inclusive, uma pesquisa recente da revista Times coloca o Calvinismo entre as 10 ideias que estão mudando a cultura dos Estados Unidos. Novamente o preconceito é bastante influenciado pelo comportamento de alguns “reformados”. Práticas que faziam sentido há quase 5 séculos não têm como fazer sentido aos nossos tempos. Porém, o conceito era tão a frente de seu tempo que não tem como ser classificado de obsoleto. O incentivo ao desenvolvimento científico e artístico à parte do controle da Igreja é um dos pontos que a humanidade deve aos reformados. O estado Laico (em seu sentido verdadeiro, distorcido nos dias de hoje) também. A educação teve uma evolução sem precedentes como a preocupação em alfabetizar a todos para que pudessem ler a Bíblia. Política, direito, linguística e outras tantas áreas do pensamento também foram altamente influenciadas. O Cristianismo, evidentemente, foi o maior beneficiado. A volta ao foco de doutrinas fundamentais, como a justificação pela fé e a supremacia de Cristo e o resgate da importância das Escrituras foram fundamentais para uma retomado ao Evangelho de Cristo. E esse era o foco. Não criar uma nova teologia, mas, resgatar as verdades que haviam sido esquecidas nas Escrituras.

 Arrogância: Se há algo que não faz o menor sentido para um reformado é a arrogância. Se for manter a coerência com a tradição monergista, que entende a total dependência do homem para poder ter qualquer relacionamento com Deus, um reformado jamais poderia se arrogar de seus méritos religiosos. Evidentemente, não é bem isso que se vê. Um salvo só pode ter entendido realmente a profundidade do que houve com ele se, em profunda humilhação, questionar sempre a Deus: “Por que eu Senhor? Por que logo eu”. Entender que não só a salvação é uma obra exclusiva do Deus Trino, mas também o conhecimento real desse Deus é algo fundamental para a fé reformada. E de que se arrogar se não se tem mérito? O pedinte não tem mérito por esticar o braço pra receber sua refeição de um benfeitor. Quanto mais nós que em relação a Deus estamos num estágio bem inferior ao de pedintes. É evidente que muitos se orgulham de serem eleitos e de conhecerem a verdadeira doutrina. Se não tenho nenhuma capacidade de julgar o primeiro caso, posso garantir que o segundo certamente é mentira. Não, não tem como entender verdadeiramente a obra de Deus e se manter arrogante.

Intelectualismo: De certa forma esse item tem muito a ver com o anterior. De fato os reformados tem uma fama de serem mais intelectualizados. Há varias explicações para isso. Primeiro que há muito mais literatura consistente escrita por reformados que por outras matrizes protestantes. Além disso, as doutrinas reformadas são mais sistematizadas e consistentemente apresentadas que a da imensa maioria de outras matrizes protestantes. Um exemplo é a doutrina pentecostal que acaba sendo associada a movimentos que não tem nada a ver como seus pensamentos pela falta de uma declaração de fé mais clara. Fique claro que não estou querendo dizer quem está correto e sim quem tem mais consistência. Há, também, o lado socioeconômico, preponderantemente no caso brasileiro. Igrejas presbiterianas, batistas particulares e outras que seguem a linha reformada tiveram uma penetração muito mais forte nas chamadas classe média e alta que os pentecostais, por exemplo. O acesso a estudo em um país desigual como o nosso é diretamente proporcional com a renda do cidadão. Isso tem mudado e vemos não só uma diminuição das diferenças sociais no país como uma sensível mudança desses padrões econômicos das denominações. Logo creio que esse problema mudará. O que digo para muitos arminianos que conheço ajudaria a mudar um pouco o cenário: Parem de reclamar e produzam literatura de boa qualidade. Temos gente boa demais no meio arminiano como Alvin Plantinga, Roger Olson, Jorge Pinheiro. Seria deveras valioso para o debate que tivéssemos um contraponto! E sim, lemos outras linhas de pensamento! Lemos tantos os acima relacionados como os irmãos Wesley, luteranos, neo-ortodoxos. (E até alguns liberais… hehehe)

Acho que pra um rascunho já tem bastante coisa. Um dia volto ao tema. Creio que nós reformados merecemos esse preconceito que nos é dirigido pelo modo preconceituoso que muitas vezes tratamos outros irmãos. Que nada mais são que isso; irmãos. Enquanto o que nos une for mais forte que o que nos separa, não há motivo para um pensamento sectário. Defender a fé é algo fundamental, mas, pode virar um ídolo se não houver cuidado. Tem sido valioso para mim conviver com alguns pentecostais. Vejo que muito do que pensava sobre eles era totalmente descabido. Vejo, inclusive, o quão longe estão desse lamentável mundo neopentecostal, cujo nome é uma ofensa aos pentecostais históricos. Precisamos sentar mais à mesa e conversar sobre nossas diferenças. Não só diminuirá nossos preconceitos como será de grande valia para a Igreja de Jesus Cristo.

Soli Deo Gloria

 

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