Arquivo do mês: maio 2013

“Por Cristo prontos a sofrer”

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“Com valor! Sem Temor! Por Cristo prontos a sofrer! Bem alto erguei, o Seu pendão, firmes sempre até morrer.” Este é o refrão do hino que fechou o culto especial do domingo, lembrando da igreja perseguida. Esta data foi criada para nos lembrarmos de irmãos espalhados pelo mundo que sofrem por confessar o nome de Cristo. Antes do hino havia acontecido uma pequena encenação em minha igreja, mas, o que me deixou em crise foi a letra de “Pendão Real”. O refrão deste hino é uma antítese do que se prega atualmente na maioria das igrejas evangélicas no nosso país.

Confesso que ao cantar essa música me senti constrangido. Tanto ao pensar nos milhares de irmãos que vivem em locais onde se dizer cristão é uma pena capital quanto ao lembrar-me das pessoas que padeceram pelo Nome história do Cristianismo. A célebre frase de C.S. Lewis, “se você está à procura de uma religião que o deixe confortável, definitivamente eu não lhe aconselharia o cristianismo”, não reflete o cristianismo mainstream de nossa era. Se não se aceita nem sofrer as agruras da vida cotidiana por ter “a marca da promessa”, o que dirá sofrer pelo Evangelho. Fico em dúvida se temos um problema de desconhecimento ou se realmente ignora-se a História do Cristianismo. Sim, pois o sofrimento por Cristo e o dedicar-se de alma ao nosso Senhor sempre foram marca de nossa História.

O que dizer da parte final do texto de Atos 5? “Os Apóstolos saíram do Sinédrio, alegres por terem sido considerados dignos de serem humilhados por causa do Nome.” Os Apóstolos haviam sido presos por pregar o Evangelho. Levados ao Sumo Sacerdote foram interrogados e libertados depois da intervenção de Gamaliel, depois de serem açoitados. A reação não foi de indignação com Deus por permitir que eles sofressem. Tampouco reclamaram com os soldados por estarem “tocando nos ungidos” ou reivindicaram os seus direitos como filhos de Deus. Não. Alegraram-se, pois estavam sofrendo por Cristo, por aquele que os libertou das trevas e os trouxe para a luz.

E quanto a Paulo, o grande evangelista dos gentios? Poderia exigir algo das igrejas que ele plantou. Ou poderia, depois de prisões, torturas, naufrágios e perseguições, preferir gozar o final da vida em paz, colhendo os louros da autoridade que tinha sobre os cristãos gentios. Pelo contrário, já em sua derradeira prisão, indo para a morte, escreve a seu filho na fé Timóteo: “Lembre-se de Jesus Cristo, ressuscitado dos mortos, descendente de Davi, conforme o meu evangelho, pelo qual sofro a ponto de estar preso como criminoso; contudo a palavra de Deus não está presa. Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus, com glória eterna.” Nosso cristianismo lembra o dele?

O sofrimento não foi exclusivo dos Apóstolos. Quando estava a caminho de Roma para ser julgado, Inácio de Antioquia escreveu uma carta à igreja local. Pedia ajuda? Pelo contrário, pediu para que não impedissem que fosse martirizado. Escreveu: “Sou trigo de Deus, e os dentes das feras hão de me moer, para que possa ser oferecido como pão limpo de Cristo.” Um fim semelhante teve Policarpo de Esmirna. Em seu julgamento final o procônsul Antonio Pio chegou a lhe oferecer clemência por sua idade avançada, contanto que negasse o nome de Cristo. Sua resposta? “Eu tenho servido Cristo por 86 anos e ele nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou? Eu sou um crente.”

Talvez por vivermos num contexto totalmente acolhedor a qualquer fé tenhamos dificuldade de entender estes homens e de nos colocarmos em seus lugares. Não hesitamos em dizer que Cristo é tudo para nós e nem pensamos antes de afirmar que topamos qualquer coisa por Ele. Será? Um dos pais apostólicos da Igreja, Tertuliano de Cartago, dizia que “O sangue dos mártires é a semente da igreja.” Estaríamos dispostos a contribuir dessa forma na seara? Difícil saber vivendo no nosso contexto. Vivemos um cristianismo tão confortável onde qualquer obstáculo é chamado de perseguição. No nosso país o cristianismo inspira feriados como o desta semana. Até a novela das 9 terá uma protagonista “evangélica”. Há liberdade para usar as mídias para levantar o pendão (bandeira) de Cristo. Mas, usa-se apenas para pedir dinheiro, atacar os gays, exaltar ”homens de Deus” e criar o lucrativo mercado Gospel. Somos mais de 40 milhões de Evangélicos no Brasil, o segmento religioso que mais cresce nos últimos 20 anos. E no que isso tem refletido? Que bandeira nos caracteriza? Os primeiros cristãos receberam esse nome por parecer com Cristo. E nós? Parecemos com quem?

Por vezes temo que a única maneira da igreja evangélica brasileira se tornar realmente luz em nossa nação é ser perseguida. Sair dessa zona de conforto obtida por ser uma “tendência” do momento para ser uma real contracultura. Temo que seja hora de sermos obrigados a realmente sofrer por Cristo, a precisar de coragem vinda dos céus para professar nossa fé. Espero estar errado, mas, creio que o único meio de o Evangelho deixar de sofrer por conta dos evangélicos é os evangélicos precisarem sofrer pelo Evangelho verdadeiro de Jesus Cristo.

Soli Deo Gloria

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Ser como criança

jesus e crianças

Agua: Transparência que se pode tomar

Branco: O branco é uma cor que não pinta

Céu: De onde sai o dia

Escuridão: É como o frescor da noite

Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus

Paz: Quando

a pessoa se perdoa

Tempo: Coisa que passa para lembrar

Universo: Casa das estrelas

Violência: Parte ruim da paz

As definições acima parecem de algum grande poeta ou mesmo de um filósofo. Algumas guardam uma profundidade enorme na simplicidade em que foram formuladas. Outras, de tão simples, assustam. Quem seria o gênio por trás disso? Ao contrário da maioria das pensatas da internet, sempre atribuídas a mestres das letras, estas definições foram cunhadas por crianças colombianas participantes de um interessante projeto. O livro “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças” é uma compilação feita pelo professor de educação infantil Javier Naranjo e contém estas definições que têm sido amplamente espalhadas pela web. Vejo adultos, com razão, encantados com a sabedoria destes pequeninos. Mas, o que isso tem a ver com o Reino de Deus? Tudo.

Num dado momento de seu ministério, trouxeram algumas crianças para que Jesus orasse por elas. Os discípulos, verdadeiros adultos, se irritaram e tentaram afastá-las.  “Então disse Jesus: ‘Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas’” [1] Imagino o que poderia ter passado na cabeça daqueles homens. “O que o Mestre quis dizer dessa vez?” Numa cultura que valorizava tento o saber dos anciãos e que nem contava crianças entre seus cidadãos (assim como mulheres), uma frase dessas tinha um potencial altamente intrigante. O que Ele quis dizer?

Vou dizer o que penso disso, sem nenhuma pretensão de ser o dono da melhor interpretação. Certamente Jesus não estava falando sobre pecado. Sim, pois além do pecado adâmico, herdado por todos, é de uma inocência muito grande olhar uma criança como um ser sem pecados. Crianças podem ser cruéis com as outras, basta vermos o que o bullying faz na vidinha de algumas delas. Sabem muito bem serem egoístas, mentirosas, desobedientes… Jesus não falava de uma pureza moral impossível a um humano. Creio que Ele se referia à outra pureza. A uma pureza de pensamento, de conceitos. A uma pureza bem característica do coração ensinável. Creio que Cristo se referia a um modo todo especial de ver o mundo que os pequeninos possuem; um modo lúdico, poético. Crianças não estão contaminadas com conceitos enlatados, com filosofias, teologias e ideologias que acabam direcionando nosso pensamento. Elas não têm medo de dizer o que pensam ou de serem reprovadas pelo pensamento crítico vigente. São naturalmente sinceras. Experimente dar um par de meias como presente de Natal para uma delas e perguntar se ela gostou. Se, com muita boa vontade a boca falar que sim, o olhinho dela vai entregar um decepcionado não.  Estão longe de serem prudentes como as serpentes, mas, bem próximas de serem simples como as pombas.

Sinto que precisamos aprender mais com as crianças, a começar por mim. Digo sem medo de errar que muito de minha formação teológica veio do tempo de criança. Ali conheci um Deus bom. Que “um coração me deu e um sorriso também”. Que deve ser louvado “com todo o ser e com todo o corpo”. Que me deu a Cristo que “me salvou e me deu perdão e agora vive no meu coração.” Que “criou os bichos, com muito carinho, todos para seu louvor”.  Que me deu a “Bíblia, meu livro companheiro”. O Deus que a pequena Ana Milena Hurtado de 5 anos definiu como “o amor com cabelo grande e poderes”. Hoje sei que a parte do cabelo não está correta, mas que o resto é deliciosamente verdadeiro. Deus faz-me como criança!

Soli Deo Gloria

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A sabedoria é um bem maior que o conhecimento

Começo deixando algo claro: não tenho conhecimento de causa pra falar sobre sabedoria. Tive a dádiva de Deus de ter nascido inteligente e, através de muito estudo, tenho uma boa bagagem de conhecimento. Porém, dadas algumas escolhas que fiz e seus resultados (ou falta deles), vejo que não posso ser chamado de sábio. Por mais que só de admitir isso já é um sinal de sabedoria… Quem sabe uma sabedoria adquirida ao longo do tempo, num longo processo que não ocorre da noite para o dia. É evidente que a maioria das pessoas tem alguns sinais de sabedoria, mas daí a ser realmente sábio é um longo caminho.

É muito importante diferenciar conhecimento de sabedoria. Por mais culto que meu pai seja, creio que já devo ter lido mais que ele. Ele sempre destaca que tenho mais conhecimento que ele. Quer saber? Trocaria todo esse conhecimento pela sabedoria que ele tem. E não nos enganemos achando que sabedoria é algo diretamente proporcional à idade. Há muitos tolos de cabelos brancos… Entretanto, o tempo é nosso maior aliado para adquirir sabedoria. Adquirir sim, pois não é algo nato. O escritor de Provérbios diz isso: “É melhor obter sabedoria do que ouro! É melhor obter entendimento do que prata!” ou “Quem obtém sabedoria ama-se a si mesmo; quem acalenta o entendimento prospera”. A sabedoria leva-nos a tomar decisões melhores e a agir de modo correto em diversas situações. A sabedoria nos ajuda a querer obter conhecimento e, principalmente, a saber usá-lo, algo raro atualmente. Escrevo este texto motivado por duas situações que vi/vivi esta semana.

O primeiro momento que me fez pensar foi um post no twitter de um jovem e proeminente blogueiro cristão. Ao criticar a visão política da esquerda ele usou uma série de desclassificações morais das pessoas. Burro, bêbado, terrorista… Logo ele que reclama tanto dos ad hominem se valeu desse tipo de argumento. Tenho minhas restrições ao pensamento esquerdista, quase tão grande quanto ao pensamento direitista. O marxismo não trará cura à todas as doenças, como no famoso quadro de Frida Kahlo. Porém, é uma posição política que merece pelo menos um respeito intelectual, devido a sua formulação histórica. Quer discordar, use argumentos inteligentes e não chulos. Faltou sabedoria na abordagem do ótimo blogueiro. Dali pra frente, qualquer argumentação perdeu credibilidade. Sobrou arrogância ao se referir ao que não concorda. Muitas vezes esse é um enorme obstáculo que o conhecimento sem a devida sabedoria nos proporciona. Um cara de muito conhecimento que tropeçou feio nele.

O segundo momento que me chamou a atenção aconteceu ao final de uma aula sobre Cosmovisão Cristã com o professor Jonas Madureira. Um senhor pediu a palavra. Sua dúvida/observação nem foi muito pertinente ao tema central, mas foi valiosa. Se o professor nos orientava a ler o nosso mundo o pastor deste senhor não o fez. Visivelmente chateado, o senhor contou sobre uma pregação sobre expiação limitada. Disse que ficou escandalizado com aquilo. Sou calvinista de cinco pontos, porém, o ponto que mais tempo demorei a internalizar foi a expiação limitada. Até hoje ainda tenho certo desconforto com isso. O pastor não pregou nada errado, muito pelo contrário! Agora, será que ele leu bem seu auditório? Será que ele os preparou previamente para que recebessem esta complexa doutrina? Conhecimento não lhe faltou, já sabedoria…

Também não devemos confundir o fato de que sabedoria e conhecimento são coisas distintas com um grave erro que acometeu a igreja nos últimos anos: a anti-intelectualidade. Defendeu-se, de forma absolutamente equivocada, que o estudo da teologia e afins era coisa carnal. Segundo estes “pensadores” o importante era o transcendental, a experiência mística com Deus. O atual cenário do evangelicalismo (e também do catolicismo) mostra que estavam errados. E nem é tão difícil de perceber o erro. A revelação de Deus foi dada através de um livro, e um livro que exige estudo. É claro que todos podem entender a Bíblia, mas é impossível fazê-lo sem estudá-la insistentemente, contando com a iluminação do Espírito Santo. A própria Bíblia dá-nos exemplo de homens estudiosos da Palavra e mesmo de outras disciplinas de conhecimento. Paulo era, além de tudo, um intelectual! Logo, não defendo aqui a negligencia ao estudo. Meu ponto é que conhecimento não leva automaticamente à sabedoria. E vou mais longe: muito conhecimento nas mãos de quem tem pouca sabedoria é algo equivalente a dar uma arma na mão de uma criança. Mais cedo ou mais tarde alguém vai se machucar.

O que fica disso tudo é que mais que ser um catedrático em teologia é necessário ser uma pessoa sábia. Estudar é preciso. Mas, sem a sabedoria que vem de Deus, de nada adiantará todo o seu labor teológico. Qualquer bom ateu saberá tanto quanto você. E não deixará de ser ateu. O próprio Diabo conhece muito da Bíblia… O conhecimento pelo conhecimento nada mais é que um hedonismo intelectual que não nos serve para nada. A sabedoria é preciosa e tem um fornecedor único. Mas não se preocupe, Tiago nos dá uma solução perfeita: “Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida”. Esse fornecedor quer muito ver-nos sábios. Antes, precisamos ser humildes para admitir que precisamos que Deus nos dê sua sabedoria. E Ele não tardará em nos atender.

Soli Deo Gloria

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O dualismo e a precariedade da subcultura “Gospel”

Fazia um tempo que não escrevia. Tenho feito alguns cursos e dedicado um tempo maior para estudos até pra ver se falo menos besteiras. Mas, essa semana algumas coisas me chamaram atenção. Primeiro fiquei sabendo de um site de “fofocas gospel”. Sim, isso mesmo que leu. Junto com os shows, as raves, as baladas, os motéis, os sex shops, as lojas de roupas, as rádios e outras coisas gospel, mostram um problema sério que iremos discutir. A isto se soma a nova canção do Thalles, “Filho Meu”, uma das maiores asneiras teológicas já gravadas. A grande questão é: que é e pra que serve esse movimento “Gospel”. E mais do que isso, o porquê considero ele tão prejudicial para a igreja.

A palavra Gospel significa evangelho no idioma inglês. Além disso, define um tipo de música muito conhecida nos Estados Unidos, caracterizada por uma forte influência da música negra americana, principalmente do blues, do jazz, do soul e do R&B. É verdade que é um estilo de música usado na igreja, mas, que tem características bem peculiares. Além disso, nem nos países de língua inglesa usa-se esse termo para designar a música cristã como um todo, se limitando ao estilo mencionado. O termo Gospel começou a ser usado no Brasil como estratégia de marketing da Igreja Renascer em Cristo, a partir de uma ideia de seu fundador, Estevam Hernandes, e de seu sócio, o publicitário e bispo Antonio Abbud. Vê-se pela origem da história que não tendia a ter um final feliz.

É evidente que o foco do nome Gospel era o mercado. Mercado que em si nem é o maior problema. Como o aumento do número de evangélicos no país, somado ao aumento do poder aquisitivo do brasileiro nos últimos anos, é evidente que surgiria naturalmente uma demanda por determinados produtos. Os problemas na verdade foram a criação forçada de um mercado num primeiro momento e, principalmente, a promoção de uma mentalidade dualista nessa massa. “Isso é de crente, pode. Esse é do mundo não pode.” Vale lembrar a oração sacerdotal de Jesus, em João 17, onde Ele pede ao Pai que não nos tire do mundo, mas livre-nos do mal. Isso sem falar do propósito da Criação de Deus e do mandato cultural que em nada se parecem com essa visão quase maniqueísta de lado bom e lado ruim. É a criação de um submundo santo, ou não tão santo… Entendo termos alguns segmentos voltados a cristãos. Editoras, por exemplo. Toda editora tem sua linha editorial de publicação. Há editoras que só publicam livros técnicos, por exemplo, ou mesmo de áreas de conhecimento específicas. Temos a necessidade de materiais didáticos, materiais para o culto (bancos, púlpitos e outros utensílios que algumas igrejas ainda preferem utilizar). Mas, dê- me um bom motivo para uma loja de roupa para cristãos.

 Esse dualismo se acentua na área da cultura, mais especificamente nas artes. “Crente só pode ouvir coisa de crente e frequentar lugar de crente.” Na era medieval a igreja criou sua cultura e forma de fazer arte. Tanto na música, com o canto Gregoriano, quanto na arquitetura e nas artes plásticas havia traços que caracterizavam uma arte sacra. Havia um estilo próprio, característico. Hoje, na maioria das vezes, temos uma cópia mal feita do secular. É absurdamente antagônico. Como fugir da cultura secular? Secularizando a igreja. Se não pode vencê-los… Não há coragem para frequentar uma balada “profana”? Faz-se uma balada cristã! Afinal, não podemos perder os nossos jovens… Jovens estes que tem acesso a toda essa cultura secular que tem muito mais qualidade. Basta quererem que podem consumir o original. Sim, pois não é só copiar. É copiar muito mal. Na música isso é evidente, basta um passeio na Rua Conde de Sarzedas em São Paulo. Além de paródias patéticas há uma série de cópias toscas de fenômenos de vendagem. Funk (!), sertanejo universitário, músicas românticas… É um lixo. Sem falar no conteúdo teológico dessas músicas. Dois exemplos clássicos são a famosa “Sabor de Mel”, uma ode à vingança do crente (!) e essa nova música do Thalles, uma atrocidade teológica, onde deus (sim, com letra minúscula) suplica pela conversão do filho, quase como um marido abandonado de uma moda de viola…

Interessante é que esse pessoal não tem problemas em usar o nome Protestante. Uma das principais bandeiras da Reforma Protestante foi acabar com esse dualismo “santo/sagrado”. Houve um incentivo enorme à liberdade para se fazer arte e ciência, por exemplo. Fomentou-se uma volta ao “mundo” mudando o foco de consagração (algo externo) para santificação (alto de dentro pra fora). É pra esse mundo que fomos chamados pra ser sal e luz. Vivendo nele, retendo o que é bom e lutando para reformar o que estiver em desacordo com o que cremos. Não fomos chamados a criar uma subcultura e sim para, sendo contraculturais, testemunharmos de Cristo para todas as culturas. Não estou falando de absorver a cultura secular e sim de reformá-la, mantendo o que é bom. Sim, nem tudo que os chamados ímpios fazem é lixo, muito pelo contrário.

Evidentemente há gente fazendo diferente por aí, principalmente nas artes. Na música, onde tenho maior conhecimento, vemos uma série de artistas de alta qualidade com trabalhos independentes e até em gravadoras ditas seculares salgando e iluminando o mundo. Há muito que não se contentam com o gueto e com o mercado gospel e buscam mostrar Jesus em contextos necessitados em conhecê-lo. Ainda é a minoria, mas, temos um começo. Que fique claro que não advogo pelo fim do movimento Gospel. Este tem um alcance importante pro Reino de Deus. O que acho que seja necessário é uma reforma de seus conceitos e de sua cosmovisão (visão de mundo). A começar, quem sabe, pelo abandono desse nome. E, mais importante ainda, pelo fim desse dualismo sem sentido. A Mensagem de Deus não é propriedade de nenhum grupo e deve ser levada a todos. O diálogo com outras culturas é importante. O medo de se “contaminar” com elas vem mais de um despreparo teológico/espiritual para enfrentar a realidade do que de um perigo efetivo. Sem isso, o Gospel continuará sendo um subcultura tosca que só será relevante dentro de um gueto de baixíssimo senso crítico. Afinal, nem precisa ter qualidade, é pra deus mesmo. E sim, novamente escolho escrever em minúscula. Meu Deus não merece essa tosquice cultural.

Soli Deo Gloria

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