Arquivo do mês: abril 2013

Afinal, o que é ser relevante?

 

Achava que essa resposta seria fácil de achar. Procurei em alguns dicionários e o que achei foram aquelas definições padrão que não dizem absolutamente nada. Importante, preeminente, que sobressai… Honestamente, não creio que nenhuma dessas definições responda a pergunta e nem conseguem dar todo o sentido que a palavra tem nos dias de hoje. Inclusive, é incrível como esse termo tem sido usado hoje em dia. “Seja uma pessoa relevante”. “Gaste seu tempo com algo mais relevante”. “Sejamos uma Igreja relevante para esse bairro.” Legal, mas o que é ser relevante? No âmbito eclesiástico sempre se olha para os chamados heróis da fé para definir essa relevância. “Seja como Moisés, Davi, Paulo, Abraão…” Não que os heróis da fé não tenham sido extremamente relevantes, muito pelo contrário, mas, mostrarei que alguns quase anônimos tiveram papel fundamental para o cumprimento dos planos de Deus para a Salvação. Aqui há muito do meu conceito de relevância. Não tomem isso como uma definição acadêmica ou exaustiva.

Pense em você como um servo fiel de um homem extremamente rico e poderoso. Segundo o costume da época, caso ele não tivesse filhos, você herdaria tudo o que o seu senhor tinha tornando-se seu “primogênito adotivo”. Era o caso de Eliezer de Damasco, servo de Abraão. Seu senhor já estava com 85 anos e sem filhos quando nasceu Ismael, que nem era o filho da promessa de Deus. Ali ficava claro que Eliezer fora preterido como herdeiro da promessa. Anos depois Abraão teria Isaque, este sim seu descendente legítimo. Eliezer poderia deixar de ser fiel ao seu senhor, ou, pelo menos, ser menos esforçado em seu serviço. Não é fácil ser preterido. Quando Isaque chegou à idade de casar, Abraão mandou Eliezer ir buscar uma esposa para seu filho dentre sua parentela. Ninguém conhecia Eliezer lá. Que moça iria aceitar sair de casa com um desconhecido para se casar com outro desconhecido, numa terra distante? Eliezer jurou a Abraão buscar a esposa de Isaque entre sua parentela e não quebrou a promessa. Orou ao Senhor que lhe mostrou Rebeca e o resto da história não nos vem ao caso aqui. A alegria de Eliezer era enorme, conseguira manter-se fiel ao juramente feito ao seu senhor. Eliezer de Damasco foi alguém relevante na história da redenção.

O povo de Israel estava escravo no Egito, mas, se multiplicava de forma impressionante. O Faraó temia que aquele povo crescesse mais e decidisse se rebelar e entrar em conflito com os egípcios. Ordenou então que as parteiras dos hebreus, Sifrá e Puá, matassem todos os recém-nascidos do sexo masculino. Tementes ao Senhor elas não o fizeram, arriscando a própria vida para obedecer a Deus. O povo continuou crescendo e, pouco depois, nasceria Moisés, o líder que Deus escolheu para tirar o povo do Egito. As parteiras “rebeldes” foram relevantes.

Imagine-se liderando milhões de pessoas no deserto e sendo o único ponto de referência. Tanto questões extremamente delicadas, como homicídios, como futilidades, como briguinhas entre vizinhos de tenda chegariam para você, único líder e juiz resolver. Além disso, você teria que direcionar todo esse povo resmungão pelo deserto até a Terra Prometida. Não tem como dar conta disso, concorda? Esse era o dia-a-dia de Moisés. Jetro, seu sogro, viu isso e não conseguiu acreditar. “Você vai ficar esgotado assim!”, disse ao genro. E, sabiamente, deu-lhe um conselho. Orientou Moisés a escolher líderes entre o povo, lideres de mil, de cem, de cinquenta e de dez. Eles auxiliariam Moisés julgando questões menos complexas e cotidianas, liberando tempo para Moisés se dedicar ao ensino dos decretos do Senhor, a questões mais complexas e à liderança do povo. Esse conselho de Jetro manteve as coisas em ordem durante a peregrinação no deserto, criando, inclusive, um modelo de gestão usado até hoje. Jetro foi alguém relevante para o Reino de Deus.

Uma atitude relevante é fazer o bem para o próximo. Aqui vão dois exemplos dentro do ministério terreno de Jesus. Havia um paralítico que queria ser curado por Jesus. O problema era: como chegar a Ele? Havia sempre uma multidão cercando o Mestre, todos querendo algo pra si e danem-se os outros. Mas, o paralítico de Cafarnaum tinha algo a mais. Quatro amigos de verdade e, cá entre nós, meio loucos. Jesus pregava numa casa, provavelmente a casa de Pedro. Os caras viram que seria impossível chegar ao Mestre pelo caminho normal. “Simples, vamos subir no telhado, destelhar um pedaço e descer a cama com nosso amigo por lá.” Cara, que atitude de amigo! Lindo isso! O paralítico foi curado para honra do nome de Deus. E, certamente, seus amigos foram grandemente relevantes em sua vida além de se tornarem um exemplo de fidelidade para nós.

E o que dizer de um menino que divide sua marmitinha com uma multidão gigantesca? Havia milhares de pessoas ouvindo Jesus. Chega o fim do dia e nada para aquele povo comer. Jesus ordena que os discípulos vão procurar algo para alimentar multidão. Encontram apenas isso com um garoto: 5 pães e 2 peixes. Honestamente, duvido que mais ninguém tivesse algo. Mas, queriam garantir o seu. “Vou dividir pra que? Não dá pra todo mundo mesmo…” Creio que alguns devem ter escondido sua marmita. Parece que o garoto não pensou assim. Mesmo podendo ficar sem nada, dividiu. Dois mil anos depois ainda se conta essa história, mesmo sem saber o nome do menino. Que, com o seu pouquinho, fez algo completamente relevante.

Por fim, olha esse último exemplo. Você é cristão. Tem um cara cuja fama é de matar cristãos. Onde você quer que ele fique? O mais longe de você! Ananias não era diferente. Uma noite o Senhor o chamou numa visão. Mandou-o ir á casa de um tal Judas para orar por um novo convertido. Nenhum problema não fosse esse novo convertido Saulo de Tarso, o perseguidor dos Cristãos. “Senhor, tenho ouvido muita coisa a respeito desse cara. Inclusive, ele veio com ordens de nos prender.” Deus insistiu e Ananias creu e foi ao encontro de Saulo, que se tornaria Paulo num futuro próximo. E, mesmo correndo o risco de uma “recaída” do antigo inimigo dos crentes, orou para que Deus curasse a vista dele, o que prontamente aconteceu. Corajoso esse Ananias… E muito relevante para o fundamental ministério com os gentios que Paulo haveria de começar.

Vê como não há regras? Ser relevante é fazer o que se deve do melhor modo a seu alcance. Influenciar alguém, ajudar outro, orar por quem necessita, dar de comer ao pobre… Relevância não se mede com números e resultados pragmáticos na escala de crescimento de igrejas. Cuidado com a ditadura moderna da relevância que cria modelos e padrões engessados de como fazer. Não há receitinha de bolo pronta nem formato santo. O que existem são oportunidades que Deus coloca em nossas vidas para que façamos algo conforme nos foi ensinado por Ele mesmo. Podem ser obras gigantescas ou um copo de água ao sedento. O importante é fazer algo que possa impactar positivamente alguém. Afinal, é para isso que Ele nos chamou, para fazermos a diferença por aqui.

Soli Deo Gloria

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Quem é imagem de quem mesmo?

“E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” O tão conhecido texto de Gênesis 1:27 parece ter sofrido uma inversão na história da humanidade. Por mais que nos últimos tempos podemos ter a impressão que esta é uma tendência moderna, o problema é antigo e mostra claramente essa nossa essência rebelada. A criatura sempre quis trocar de lugar com o Criador e recriá-lo à sua imagem e semelhança. Deus, como é, não nos serve. Precisamos de um deus mais parecido conosco, que nos entenda. Um Deus menos distante…

A prerrogativa de criar um ser à Sua imagem e semelhança sempre foi de Deus em relação ao homem, e não o contrário. Deus, misericordiosamente, repartiu alguns de Seus atributos com sua criatura mais importante. Não os repartiu em sua plenitude, mas, mesmo em menor escala, temos “características” análogas a Deus. Temos como ser sábio, por exemplo. Salomão é a prova mais clara disso na Bíblia. (“Assim o rei Salomão excedeu a todos os reis da terra, tanto em riquezas como em sabedoria”. I Rs 10:23) E nem precisamos ir tão longe. Certamente todos conhecemos alguém sábio, que não é o mesmo que inteligente, em nossa caminhada. Gente que sabe as melhores atitudes a tomar, o mais adequado caminho a seguir. Deus nos comunicou outros atributos como bondade, amor, misericórdia, zelo e outros mais. Sempre em escala menor que a Sua, mas, temos esses atributos. Inclusive é por isso que podemos nos relacionar com Ele da forma como fazemos. E por isso que, como a trindade é uma comunidade, Ele nos criou para sermos seres relacionais.

O homem não quis ficar para trás. Os deuses da mitologia grega são exemplos ideais. Longe de serem perfeitos, eles tinham muitas das falhas morais de um ser humano. Entre eles havia traição, mentira, uma vida sexual devassa (incluindo até incesto), homicídios, avareza; em suma, tudo o que havia de pior no ser humano foi “comunicado” para estes deuses. E cá entre nós, é bem mais fácil agradar e “ficar em paz” com um deus desses. Que moral ele tem pra julgar minha conduta? Olha a dele! São deuses dependentes do homem. Sem os sacrifícios eles não se alimentam. São deuses subornáveis. Precisam de algo; aplaque a ira do deus que ele te dará o que quer ou não te castigará. São deuses manipuláveis, corruptíveis, desonestos, cruéis. São deuses à imagem e semelhança do homem. Criaturas que refletem o caráter de seu criador. O profeta Jeremias disse: “Pode o homem mortal fazer os seus próprios deuses? Sim, mas estes não seriam deuses”! Não há deus como o nosso Deus!

Isso parece algo primitivo, distante. Mas, é isso que vemos em muitas teologias modernas. E com um agravante. Ao deus que se cria dá-se o nome de Jeová, do nosso Deus. As influências do mundo externo trás para dentro da igreja conceitos que distorcem a real imagem de Deus. O pós-modernismo entra relativizando tudo. O poder de Deus, o pecado, a salvação, a realidade do inferno. Soma-se a isso uma “paganização” de Deus, criando um deus que negocia suas dádivas. Cria-se um deus que se diminui para parecer com sua criatura. Cria-se um deus mentiroso que outrora via o pecado de uma forma e hoje o vê de forma bem mais complacente. Cria-se um deus “manco”, que deixou de ser justo para ser somente um poço de amor infinito. Ou que prefere julgar com mão de ferro a amar o pecador. Cria-se um deus pagão, que aceita oferendas de seus adoradores para fazer algo em troca. Cria-se um deus vingativo, que tem prazer no sofrimento do que não o adora. Cria-se um deus “surpreendível”, que não sabe o dia de amanhã e vive de elaborar planos de contenção. Cria-se uma série de deuses, chamados erroneamente de Deus, sem dar atenção ao que as Escrituras dizem sobre Ele.

Precisa-se criar um deus que tire a culpa do homem pelos seus erros. O caso é Deus já fez isso! Ele sabia que o homem haveria de cair e enviou seu Filho para salvar o homem de seu pecado e livrá-lo de sua culpa.  Jesus não veio para perdoar pecados passados ou específicos, mas, para perdoar TODOS os pecados daqueles que o Pai lhe deu. Deus continua odiando o pecado e sendo um Deus justo e irado. Mas, sua justiça e sua ira contra seus filhos foram satisfeitas na cruz. Deus tem prazer em dar coisas boas aos seus filhos, como lemos em Mateus 7:11, mas, quando, como e o que fazer são decisões soberanas Dele. Ele é dono de todo ouro e de toda a prata, não mercadeja suas bênçãos. Deus não precisa se despir de sua onipotência nem de sua onisciência para se relacionar com o homem. Deus não desistiu do inferno para lançar lá os que Ele julgar que devem ter esse fim. Julgamento que é prerrogativa dele, que irá mandar ou deixar de mandar quantos e quem Ele achar que deve. E Ele nos deixa claro que nossa função não é ajudá-lo com uma pré-seleção de “infernáveis”, mas amar a todos e pregar seu Evangelho a toda criatura. A salvação pertence ao Senhor conforme Sua vontade.

Não é Deus que precisa mudar, somos nós. Não é Deus que precisa se parecer mais comigo, eu que preciso, através do exemplo de Cristo, ser mais parecido com Ele, dia após dia. “Sede santos por que Eu sou santo”. O máximo que podemos fazer para tornar Deus mais parecido conosco e criar uma imagem falsa Dele que em nada alterará o que Ele realmente é. Deus não perde um micrômetro de sua Glória quando O entendemos de forma equivocada. Por outro lado, Deus faz algo fantástico para nos conformar a Ele, através da obra do Espírito Santo. Obra longa e que só será concluída na Eternidade. Muito mais útil do que criar um deus parecido conosco é deixar que Deus nos transforme em pessoas parecidas com Ele.

Soli deo Gloria

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Cânticos congregacionais ou gritos de torcida?

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Antes de tudo: Não quero ofender ninguém aqui. Gosto é gosto e não sou o dono da verdade. Porém, depois de passar mais da metade de minha vida envolvido no ministério de louvor, tenho algumas convicções e um pouquinho de conhecimento do que falo. Portanto, leia por sua conta e risco. Admito que o texto é polêmico. E nada de não julgueis. Aqui não me interessam pessoas e sim fatos. Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.” (João 7:24).

Ontem aconteceu um jogo importante do meu time, o São Paulo Futebol Clube. O time vinha muito mal e enfrentaria o melhor time da Libertadores até o momento, o Atlético Mineiro, precisando vencer a qualquer custo e ainda torcer por outro resultado. Some-se a isso a ausência de dois dos principais jogadores e temos um cenário que muitos descreviam como um famoso filme: À espera de um milagre. Gosto de futebol e das brincadeiras sadias que o envolvem. Portanto, fiz algumas piadas no facebook usando letras de músicas gospel “pedindo” o milagre e depois, “comemorando” o milagre. Evidentemente era uma brincadeira sem nenhum sentido mais profundo, porém, pensando com calma depois, vi que realmente a brincadeira tinha um fundo de verdade.

Vejamos algumas frases de músicas que estão nas “paradas de sucesso” gospel. Não citarei os cantores das mesmas, pois não vejo sentido para isso.

“Hoje é o dia da minha Vitória / Hoje eu verei meu milagre acontecer”

“E a capa leva o tema: a história de um vencedor / Toda luta foi embora
E ao abrir me surpreendi / Meu diário só tem página de vitória.”

“Deus vai bradar, anunciar em alta voz pra o universo ouvir, eis que um novo vencedor está chegando ai,”

“Pois vim ante o altar / Minha benção receber / E esta semana um decreto de vitória / Eu terei!!!”

Percebe que o foco saiu de onde deveria estar? Não são músicas cristocêntricas. São completamente antropocêntricas. MINHA vitória. EU vencerei. MINHA benção. Além disso, são músicas completamente triunfalistas. Se o contexto fosse a vitória sobre o pecado, sobre o Mundo, aquela vitória obtida por Jesus na cruz que nos deu vida eterna, OK. Mas não. O contexto é sempre ligado aos problemas da vida, às lutas do dia a dia. “Se diante de mim não se abrir o mar, Deus vai me fazer andar por sobre as águas” Como assim? Nadar ninguém quer, né? Sério, logo teremos músicas do tipo “Se a benção não chegar, olé, olé, olá. O pau vai quebrar.” Tem se perdido a noção de quem somos e quem Deus é. De novo; DEUS. O Criador do Universo. O Todo-Poderoso. Aquele que Era, É e sempre Será.

Louvor é o ato de elogiar, enaltecer, bendizer, exaltar, glorificar alguém. Se louvo a Deus, a Jesus, ao Espírito Santo, devo focar em quem? Difícil resposta… Isso me lembra de um episódio do Chaves. O Professor Girafales fala para Dona Florinda. “Então, vamos falar da senhora. O que sente, o que pensa, que opinião tem sobre MIM…” Soa ridículo, não? Pior que é assim que parecem alguns de nossos louvores “a Deus”.

Claro que Deus vem em nosso socorro. Claro que temos que exaltar os poderosos feitos de Suas mãos. O problema é que ELE deve ser o foco, não um coadjuvante na sua história de vitória. Não tenho visto isso em muitos dos cânticos que vemos hoje em dia. Não se pede, se ordena. E aí de Deus se Ele não fizer! Pior, está virando um grande imposto de renda. Eu declaro, eu quero minha restituição. Tributar que é bom, necas… Esse triunfalismo, essa coisa do crente não poder sofrer ou sempre se dar bem no final não é bíblico. Esquecem-se da história de Paulo, por exemplo. Olha o que ele diz aos tessalonicenses: “Por isso, quando não pudemos mais suportar, achamos por bem permanecer sozinhos em Atenas e, assim, enviamos Timóteo, nosso irmão e cooperador de Deus no evangelho de Cristo, para fortalecê-los e dar-lhes ânimo na fé, para que ninguém seja abalado por essas tribulações. Vocês sabem muito bem que fomos designados para isso. (I Ts 3:1-3, grifo meu ). Ou então, olha o testemunho aos filipenses, do qual normalmente só se enfatiza a segunda parte: “Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” (Fp 4:12-13) Mas, no final ele se deu bem, não? Depende do que definimos como final. Se for no final da vida terrena, acho que não. A menos que ser decapitado seja um final feliz. Agora, se falarmos do porvir, certamente ele venceu e herdou a vida Eterna. Combateu (não disse venceu) o bom combate, terminou a corrida (não disse em primeiro) e guardou a fé. Isso sim é vitória! Não o conceito hollywoodiano do mocinho sempre se dando bem no final. Vide o número de mártires do cristianismo. Não fomos chamados pra vencer aqui. Aqui somos militantes, na Eternidade é que seremos triunfantes! Teremos lutas, calmarias, vitórias, derrotas, paz, tristeza… Deus sempre estará conosco, mas, não nos garante bonança. Nos garante consolo! Perdeu-se a visão escatológica, a visão do porvir. Hoje se vive como se o céu fosse aqui. O Reino é chegado, mas, não plenamente. Isso, só no porvir. Porém, isso é assunto pra outro texto.

Mas o pior é que temos outro tipo de música, mais lamentável ainda. O “louvor” de birrinha, que em nada se parece com um Salmo imprecatório. Olha isso aqui:

“Quem te viu passar na prova e não te ajudou
Quando ver(sic) você na benção vai se arrepender
Vai estar entre a plateia e você no palco”

COMO ASSIM?! É tipo um toma trouxa! Eu tenho benção, você não tem.  Cara, isso é surreal. Por isso a comparação com músicas de torcida. É um “nós vamos ganhar e vocês, ímpios malditos, vão perder.” Cara na poeira! Com o perdão da palavra, é o equivalente ao jargão futebolístico “chupa”. “Ai, que feio falar assim André”.  É amigo, só as palavras foram mais “delicadas”. Ou, então, Jesus estava enganado quando disse: ”Amem, porém, os seus inimigos, façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem esperar receber nada de volta. Então, a recompensa que terão será grande e vocês serão filhos do Altíssimo, porque ele é bondoso para com os ingratos e maus.” (Lc 6-25) Que raios de revanchismo é esse? De que evangelho foi tirado? Valendo-me novamente do Chaves, é o evangelho segundo o Quico! “Eu tenho um pirulito (ou uma benção) e não te dou!”

Não quero ser exaustivo aqui. Se pegarmos pra analisar o que o mercado gospel nos oferece teremos uma série de coisas do gênero. Não me interessa quem canta, de que igreja é,  quem é o pastor. O caso é que isso não é louvor a Deus. É louvor ao ego. Saudade dos velhos hinos do passado. Saudade das canções dos Vencedores por Cristo (e não dos Vendedores de Cristo), do MILAD, do Asaph e de outros tantos. Bendito seja Deus pelo Gérson Borges, pelo Stênio, pelo Bomilcar e outros que não se deixaram levar por essa onda. Precisamos resgatar o centro de nosso louvor.  Como Paulo escreveu aos Romanos: “Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A Ele seja a glória para sempre! Amém.” Inclusive, comece lendo as doxologias de Paulo. As encontrará, normalmente, ao final de suas cartas. São palavras de louvor, de adoração e glorificação. É um bom caminho para aprender a louvar Deus. Sim, a vitória é certa, mas, não essa vitória materialista. Somos mais que vencedores em Cristo. Ele venceu e nos deu a vitória que será definitiva no céu. Por aqui temos um combate a lutar, uma corrida a correr e uma fé a guardar.

Soli Deo Gloria

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Muito além de uma cura

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Vamos ser sinceros. Se tem algo desafiador na leitura completa da Bíblia é passar por Levítico. A menos que você seja jurista, advogado ou algo que o valha, aquele monte de lei, decretos, regras e etc estão longe de ser a literatura mais interessante a ser lida. Eu mesmo já li Gênesis e Êxodo algumas vezes. Agora, passar por Levítico sempre foi uma luta; pouquíssimas vezes vencida. Estou lendo a Bíblia num formato bastante legal, em ordem cronológica. É um material valioso que a Editora Vida publicou no Brasil, usando a Nova Tradução Internacional como texto base. E não, não ganho um centavo pra promover este material, só gostei muito mesmo! A vantagem de ler assim é que o texto de Levítico acaba ficando diluído em meio a outros de mesmo estilo. Grande parte da Lei acaba ficando junta e acaba fazendo mais sentido numa leitura corrente.

Mesmo assim admito ter uma enorme dificuldade de entender todo o significado das Leis do Antigo Testamento. Embora saiba que a intenção é didática – mostrar ao povo como se relacionar com um Deus Santo e como estamos longe de podermos, por nossos próprios meios, nos apresentar puros a Ele – ainda me sinto um pouco frustrado por não entender melhor alguns pormenores da lei. Porém, algumas coisas precisam ficar claras. A principal delas é que o Espírito Santo é nosso grande aliado na interpretação da Bíblia. Ler as Escrituras sem se colocar humildemente como alguém que precisa do Espírito para entendê-la é um erro sem tamanho. Outro ponto importante é lembrar o quão sui generis é a Bíblia. Ao mesmo tempo em que é uma compilação de vários escritos, de várias épocas, idiomas, autores e culturas, é um livro só. A mensagem da Bíblia é única e totalmente harmoniosa. Por fim, valho-me da Confissão de Fé de Westminster: “A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente”. Em resumo, a Bíblia é a melhor intérprete de si mesma.

 

Toda essa introdução é para mostrar o quanto precisamos ler com o mesmo cuidado toda a Palavra. Sim, até as genealogias e leis civis israelitas podem “esconder” algo valioso que em algum momento explicará alguma outra passagem. Mostrarei agora o como isso me ajudou a entender melhor a profundidade de uma passagem do ministério de Jesus. Transcrevo abaixo o texto de Levítico 15:19-27

“Quando uma mulher tiver fluxo de sangue que sai do corpo, a impureza da sua menstruação durará sete dias, e quem nela tocar ficará impuro até à tarde. Tudo sobre o que ela se deitar durante a sua menstruação ficará impuro, e tudo sobre o que ela se sentar ficará impuro. Todo aquele que tocar em sua cama lavará as suas roupas e se banhará com água, e ficará impuro até à tarde. Quem tocar em alguma coisa sobre a qual ela se sentar lavará as suas roupas e se banhará com água, e estará impuro até à tarde. Quer seja a cama, quer seja qualquer coisa sobre a qual ela esteve sentada, quando alguém nisso tocar estará impuro até à tarde. Se um homem se deitar com ela e a menstruação dela nele tocar, estará impuro por sete dias; qualquer cama sobre a qual ele se deitar estará impura.

Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue por muitos dias fora da sua menstruação normal, ou um fluxo que continue além desse período, ela ficará impura enquanto durar o corrimento, como nos dias da sua menstruação. Qualquer cama em que ela se deitar enquanto continuar o seu fluxo estará impura, como acontece com a sua cama durante a sua menstruação, e tudo sobre o que ela se sentar estará impuro, como durante a sua menstruação. Quem tocar em alguma dessas coisas ficará impuro; lavará as suas roupas e se banhará com água, e ficará impuro até à tarde.“

A história da mulher como o fluxo ininterrupto de sangue está descrita nos três Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). Em ambos os casos está colocada no meio da história da cura da filha de Jairo. É importante ressaltar que nem todos os acontecimentos da vida de Jesus aparecem em todos os Evangelhos Sinóticos e, quando acontece isso, devemos dar alguma importância especial ao fato. Lembrando rapidamente da história, havia uma mulher que tinha um fluxo de sangue ininterrupto por 12 anos. Quem convive com uma mulher e, principalmente, quem é mulher deve imaginar o tamanho desconforto que isso geraria. Se uma semana de menstruação já é desagradável, imagine mais de 600. Consecutivas.  Só isso já nos faz ter pena da situação dela. Porém, e é esse o ponto que quero ressaltar, olhar para a lei deixa tudo muito mais dramático. Eram doze anos sem poder ter uma vida normal. Se fosse casada, sem poder dormir com o marido. Se tivesse filhos, sem poder sentar-se no mesmo lugar que eles. Era considerada suja e impura para a comunidade. Cá entre nós, que vida social ela tinha? Deveria ser falada por muitos, olhada com certo asco por outros. “Coitada”, devia ser o sentimento de alguns. “Algum pecado escondido deve ter causado isso”, pensariam outros. Uma coisa garanto: A palavra normal não poderia ser aplicada à sua vida. A dimensão do problema dela fica bem mais clara à luz das restrições sociais a ela impostas pela lei. Mais que um sofrimento físico, havia uma dor psicológica, um sentimento de desprezo perante sua comunidade. Vê como tudo fica mais evidente?

Aquela mulher já tinha ido buscar alternativas. Gastara tudo o que tinha com médicos e nada conseguira. Estava fadada a viver daquele modo para sempre. Sempre a margem. Sempre excluída. Sempre impura. A decisão de procurar Jesus foi desesperada, era sua última chance. Se Ele não resolvesse, quem mais poderia resolver. Porém, como sair a público assim? Qualquer um que esbarrasse nela seria “contaminado” com sua impureza. Se fosse descoberta certamente teria problemas. Ela deixou o medo e a timidez de lado e foi para o meio do povo. Não só foi um ato de desespero, mas também de coragem. Não queria nem falar com Jesus, não seria necessário. Sua fé era tão grande que sabia que se simplesmente tocasse em suas vestes seria curada. Não tinha dúvidas disso. E foi o que fez. Na hora Jesus percebeu o que havia acontecido. “Quem me tocou?” A pergunta soava até meio bizarra. Tinha centenas de pessoas em volta Dele, se acotovelando. É evidente que alguém tocaria Nele. Na verdade, um monte de gente o faria! Mas, não foi um esbarrão, um toque qualquer. “De mim saiu poder”, disse o Mestre. Jesus sabia que quem o tocou fizera sabendo que seria curada. Sabia o tamanho do gesto de fé que acabara de acontecer. Constrangida, a mulher se acusou. Esperava o julgamento. Sabia que corria o risco de tomar uma descompostura de Jesus. Sem falar que quando o sacerdote soubesse ela estava perdida. Ela não tinha escolha. Acusou-se e se prostrou aos pés de Cristo. Contou a Ele o motivo que a levou a tocá-lo. Seu sofrimento e como nenhum médico a pudera curar. Mas, que bastou tocar a orla das vestes de Jesus e sua hemorragia cessou. É evidente que Cristo sabia de tudo isso. Queria mostrar seu poder à multidão e evidenciar o gesto de fé daquela mulher. Quem lá estava sabia bem das implicações do problema dela e de como isso impactava em sua vida. As doces palavras do Mestre selaram a história: “Filha, vá em paz. Tua fé te curou.” Sim, era o fim. Ela estava de volta à sociedade. Acabou o sofrimento!

O que quero enfatizar aqui é como conhecer bem a Palavra torna mais rica sua leitura. Fosse só uma cura de uma hemorragia já seria algo magnífico, miraculoso. Porém, há um pano de fundo importante aí. O sofrimento era maior que se pode imaginar a primeira vista. Jesus a curou e lhe restaurou uma vida plena. Trouxe a dignidade para aquela mulher, ela poderia voltar a ter uma vida normal. Isso é fantástico! Espero que esse exemplo tenha sobre você o mesmo impacto que teve sobre mim. Não despreze nenhuma parte da Palavra. Pode ser que um texto em si próprio não diga muita coisa, mas, dentro de um contexto geral ele pode abrir bem seus olhos para que entenda melhor alguma mensagem. Leia a Bíblia com reverência, atenção e cuidado. Não é nada místico não. Apenas um modo de entender melhor a Palavra dada por Deus para nós. E jamais deixe de pedir que o Espírito te ilumine. Faça a oração do salmista: “Desvenda os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei.” Certamente a Bíblia será cada vez menos enigmática para você e te ensinará a viver melhor a vida que Deus quer pra ti.

Soli Deo Gloria

P.S. Recomendo que ouça essa música. Certamente vai te ajudar muito a entrar nessa bela história. http://www.youtube.com/watch?v=zoka7zPcca0

 

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