Arquivo do mês: março 2013

É preciso muita fé para duvidar

Era de manhã. Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e outras mulheres foram ao túmulo do Mestre. Chegando lá viram a pedra rolada e não havia ninguém no túmulo. Vazio. O túmulo estava exatamente como seus corações. Vazio. Onde teriam posto o corpo do Mestre? Maria Madalena estava assustada e maravilhada e foi contar aos discípulos. Pedro e João foram correndo ao túmulo. João, o discípulo amado, percebeu um pequeno detalhe. Os lençóis que cobriam o corpo de Cristo estavam jogados ao chão, mas havia um lenço à parte, dobrado.  Qualquer garoto judeu entenderia aquele sinal. Se um amo levantasse da mesa e deixasse um lenço amontoado ao lado significaria: “Já terminei”. Porém, um lenço dobrado era um recado ao servo: “Eu voltarei.” João entendeu aquilo. Jesus estava vivo. Ele ressuscitara dos mortos, conforme as Escrituras. Porém, nem todos acreditaram naquela linda História. Vamos ver algumas reações e teorias sobre o que houve.

Maria ficou do lado de fora do túmulo, chorando. Olhando para dentro viu dois anjos que perguntaram por que ele chorava. “Levaram o corpo de meu Mestre”, lamentava-se. Virou-se e viu um homem. “A quem procuras?”, perguntou ele. Imagino que Maria, desesperada, deve ter gritado com ele quando disse: “Senhor, onde você o colocou? Conte-me, por favor!”. Este homem era Jesus. Docemente disse: “Maria!”. Não poderia ser verdade. Era o Mestre. Vivo! “Raboni”, exclamou. Jogou-se aos seus pés e o adorou. Depois, foi contar a todos o que vira.

Imagine os soldados. A Bíblia não descreve detalhes, mas, deve ter sido um belo susto ver Jesus saindo do túmulo. Ver os anjos rolar a pedra. Cara, um morto havia levantado! Eram destemidos soldados romanos, mas, quem não se assustaria com aquilo? Fugiram em disparada. Alguns desapareceram. Outros foram contar a novidade aos religiosos de Jerusalém. Ficou acertado entre eles qual seria a versão. Os sacerdotes deram um dinheiro para os soldados dizerem que cochilaram e os discípulos foram e roubaram o corpo. Digamos que isso não cairia bem para os soldados quando o Governador soubesse. Os sacerdotes os acalmaram. Dariam um jeito de livrá-los. A história a ser contada deveria ser aquela.

Dois discípulos caminhavam pela estrada de Emaús. Conversavam, tristes, sobre tudo o que havia ocorrido. Jesus chegou perto e foi caminhando com eles. “Por que essa tristeza?”, perguntou. Acho que eles devem ter ficado irritados. Como esse cara não sabia o que havia ocorrido? Contaram-lhe tudo. Jesus ouviu e os indagou. “Vocês estão surpresos com o que? As Escrituras já haviam avisado sobre isso”. Amorosamente ensinava-os sobre o que Moisés e os Profetas haviam dito sobre tudo aquilo. Era tarde, convidaram-no para entrar. Antes da refeição Jesus orou e partiu o pão. “Peraí”, pensavam. “Quem mais pode ser este se não Jesus?” O Mestre sumiu. “Como não percebemos antes?”, disseram. “Não queimava nosso coração ao ouvi-lo?”. E foram contar aos 11. Lá chegando e contando a história Jesus apareceu a todos. Ou melhor, quase todos. Tomé não estava lá. “Só acredito vendo e tocando em suas feridas”. Teimoso… Eu faria igual, creio… Oito dias depois Jesus apareceu lá novamente. Lá estava Tomé. Jesus, carinhosamente pediu que tocasse em suas feridas. Não foi preciso. Tomé creu na hora. “Deus meu e Senhor meu”. Como não crer?

Pois bem, até hoje tentam diminuir esta Verdade sem igual. O iluminismo fez com que o racional desacreditasse em todo o sobrenatural. Triste. O ceticismo era tamanho que era necessário achar alguma resposta para uma evidência absolutamente irrefutável: o túmulo vazio. Primeiramente, a mais simples de todas. Erraram o túmulo. Maria e as mulheres foram no túmulo errado. Perfeito, faz sentido. Porém, por que então os sacerdotes e fariseus subornaram os soldados para inventar a história que comentei acima. Seria mais fácil ir ao túmulo correto e mostrar a “verdade”. Argumento 1 furado. Continuemos.

“Os discípulos foram lá em roubaram o corpo de Jesus”. Sim, um destacamento romano INTEIRO teria cochilado e não teria visto os caras chegarem, rolarem uma pedra gigante e levar o corpo de Cristo embora. Sei… E se acordaram, os corajosos discípulos, que fugiram na hora da prisão, desolados com a perda do seu Mestre, foram, lutaram e venceram os soldados romanos. Cara, se exércitos muito maiores e mais poderosos levavam um couro de pequenos destacamentos romanos, como aqueles discípulos medrosos os venceria? Furadaça!

A próxima teoria é divertida. Quem disse que Jesus morreu. Ele desmaiou e ninguém percebeu. Acordou uma hora, levantou, rolou a pedra enorme sozinho e foi embora. Faz todo o sentido! Quem não rolaria uma pedra daquelas depois de recobrar a consciência? Quem inventou essa devia ser piadista. Do Zorra Total…

Mas, sabe o que confirma de vez a verdade? O modo como morreram cada um dos discípulos, que vieram a ser Apóstolos. Mesmo tendo suas vidas em risco, ou negariam a Jesus ou morreriam, todos morreram pela Verdade. Um ou dois, até vá lá. Logo algum iria pensar bem e dizer: “Para. Contarei a verdade. Jesus não ressuscitou nada. Era mentira”. Pronto, acabava o problema! Não, TODOS foram até a morte garantindo a Verdade. O que eles teriam a ganhar com a mentira? Dinheiro? Pesquise sobre a vida deles. Ao contrário dos apóstolos da TV, os verdadeiros Apóstolos de Cristo não enriqueceram, não ganharam poder, não levaram nenhuma vantagem… Vejamos: Pedro, crucificado de ponta cabeça. André, crucificado em X. Tomé, morto por lança por 4 soldados. Filipe, crucificado ou torturado. Bartolomeu, esfolado vivo. Tiago Zebedeu, decapitado. Tiago Alfeu, apedrejado. Simão Zelote e Judas Tadeu, a machadadas. Mateus, martirizado. Só João morreu de forma natural, pregando o Evangelho até o último dia de sua vida. Será que todos eram mentirosos? Todos deram a vida por uma balela? DUVIDO!

Honestamente, olho pra todas essas histórias e para as bizonhas teorias dos céticos e só penso uma coisa: não tenho fé suficiente para duvidar da Verdade Bíblica. Sei em quem tenho crido. Sei o quanto é poderoso. Sei que é Verdade! Se tinha um ou dois anjos, não importa. Se quem viu primeiro foi Pedro ou Maria, pouco interessa. Sei de algo: “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?”. Sei que meu Mestre vive e está assentado à destra de Deus Pai, governando o Mundo. E voltará para me buscar para viver no Seu Reino. Ele me resgatou do império das trevas e me levou para Seu Reino. Sei que Ele vive! Bendito seja o Cordeiro de Deus que limpa o pecado do Mundo. Santo, Santo, Santo és tu, Filho do Deus vivo. Bendito para sempre. Reinará de Eternidade em Eternidade. E lá estarei, junto com os anjos, louvando meu Salvador para sempre. Aleluia! Amém!

Soli Deo Gloria

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Deus está morto

Creio que já tenha ouvido esta frase alguma vez. Quem a criou foi Friedrich Nietzsche e a imortalizou em “Assim falou Zaratrusta”. O contexto original da frase é filosófico. Segundo ele, a humanidade não necessitava mais de Deus para responder nenhuma de suas questões sobre a vida. O que quero refletir hoje nada tem a ver com o contexto de Nietzsche. Quero refletir um pouco sobre o sábado, chamado de Aleluia. Quinta, sexta e domingo de Páscoa têm vastos registros nas Escrituras. O Sábado não. Logo, admito que o que escreverei aqui é uma inferência, apenas o que creio que possa ter passado no coração de alguns dos personagens da História de Cristo.

Jesus Cristo estava morto, sepultado dentro da tumba oferecida por José de Arimatéia. De certa forma, em nenhum outro momento da história a frase de Nietzsche faria tanto sentido. Começo pensando no que passava na mente e coração dos escribas e fariseus. Pra eles, a frase teria um sentido de chacota. “O filho de Deus? Tá lá, morto.” “Era mais um engodo. Outro enganador safado que queria se passar pelo Messias”. A sensação era de vitória. E, por mais estranho que pareça, uma vitória em nome de Deus. Na cabeça deles, eles estavam fazendo algo para honra de Deus, eliminando mais um blasfemador, mais um falso profeta que estava enganando o povo. Justiça foi feita. Mal sabiam o quanto enganado estavam.

De outro lado estavam os discípulos e seguidores de Cristo. O sentimento deles era outro. Deus estava morto. O Deus deles estava morto. “Deixamos tudo por Ele. Depositamos todas as nossas esperanças Nele. À toa”. Entregaram tudo por Ele. Deixaram família, amigos, a comunhão na Sinagoga. A vida toda seriam os “trouxas” que seguiram aquele maluco que se passava pelo Cristo. Sabe o que achamos dos discípulos do Inri Cristo? Então, era essa a imagem que teriam deles. Decepção. Tristeza. Desesperança. E agora? Como reconstruir a vida? Como explicar para os antigos amigos que aquele por quem eles abandonaram tudo tinha morrido? Como ser aceito novamente na sinagoga? Como ser aceito de novo na comunidade? O sonho teria acabado?

Incrível como, em ambos os casos, uma percepção errada da fé fez com que eles se enganassem sobre a verdade. Escribas e fariseus conheciam muito bem Moisés e os Profetas. Deveriam ter visto os inúmeros sinais que a vida de Jesus dava de que Ele era o verdadeiro Messias. Pelo menos pelas obras, como as do Pai. No caso dos discípulos, quantas vezes Jesus Cristo disse o que ocorreria com Ele? Na última Ceia mesmo foi tão claro? Cadê a fé deles? Jesus foi claro. “Ressuscitarei ao terceiro dia e vou encontrá-los na Galiléia”. Fica muito claro pelos relatos do domingo que eles não acreditaram ou nada entenderam.

Aquele sábado, definitivamente, foi um dia estranho. Uma alegria enganada de uns e uma tristeza que, em poucas horas, se transformaria numa alegria sem medida para outros. A alegria pela morte duraria um dia. A alegria pela vida durará a Eternidade.

Soli Deo Gloria

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Covarde

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Seguindo com os posts sobre a Páscoa, começo com um esclarecimento. Não escrevi nada na quinta por um motivo justo. Comecei a ler os relatos dos Evangelhos sobre o dia da última ceia e da prisão de nosso Senhor e cheguei a João. Depois de ler o relato do discípulo amado, dos capítulos 13 a 17, desisti de escrever algo. Jamais conseguiria algo tão maravilhoso. Se não leu esse trecho, reserve uns 30 ou 40 minutos e o faça. Tente entrar a história, como alguém que está ouvindo o Mestre ensinar. Garanto que terminará falando um empolgado amém ao final da oração sacerdotal, no capítulo 17.

Quando eu era criança, uma missionária amiga da família dizia que eu era um Pedrinho. Dizia que meu temperamento era parecido com o dele; explosivo, impulsivo, sanguíneo… Concordo. Até hoje tenho problemas com isso. E olha que já melhorei muito… Como diz meu amigo Aroldo (pastor Aroldo, nunca me acostumarei…) sou um cara bem protestante, protesto sobre tudo. Jesus ensinava seus discípulos durante a ceia “final”. Num dado momento vai, pega uma toalha, amarra na cintura, enche uma bacia e começa a lavar os pés dos discípulos. Pedro, sempre ele, se recusa a receber esse carinho do Mestre. “Eu não Senhor. Meu pé o Senhor não lava!” Calmamente o Mestre o retruca: “Se não o fizer, não terá parte na obra que estou fazendo”. E Pedro, com seu jeito Pedro de ser, exclama: “Então lava a cabeça e as mãos também!” Esse era Pedro… Acho-o uma das mais fascinantes figuras das Escrituras.

Mas, tenho outra coisa em comum com Pedro. E creio não ser o único. Durante seu último ensino antes da morte, Cristo diz que vai para um lugar onde, naquele momento, seus amigos não poderiam ir. Adivinha quem vai se opor a isso?  Sim, Pedro. “Mestre, irei para onde o Senhor for. Se precisar enfrentar prisão ou até a morte por ti, enfrentarei”. A próxima frase de Jesus é chocante. “Pedro, antes que o galo cante, me negarás três vezes.” Pois bem, saíram para o Monte das Oliveiras para orar. Jesus, no caso. Pedro, João e Tiago acabaram dormindo. Tristeza, talvez.  Dali um pouco, chega Judas e uma turba. Guardas armados, religiosos, políticos, todos pra prender a Jesus. Devia ser uma galera… E Pedro, destemidamente, vai e corta a orelha de um dos soldados. Cara, era um soldado romano. ROMANO! Esses caras não eram muito do bem… Tinha que ser meio doido para fazer uma coisa dessas. Pedro era. Jesus cura a orelha do soldado e depois é preso. Pedro vai atrás, meio escondido, vendo o que aconteceria.

Mas, segundo o relato de João, Pedro não estava só. Estava com outro discípulo que conhecia o Sumo Sacerdote. João não diz quem é, mas, isso pouco importa. Esse discípulo falou para a moça encarregada da porta para que Pedro entrasse. E ela deixou. Antes, porém, lhe perguntou se ele não era um dos que andavam com Jesus. Tenho pra mim que a pergunta era meio que retórica, no fundo ela sabia que sim. Mas, seja como for, Pedro negou ser um dos discípulos. “Não o conheço”. Três anos, tantas experiências… Ouviu essa pergunta mais duas vezes. E a resposta foi a mesma. Pelos relatos, chegou até a praguejar contra um dos interlocutores. Cadê a coragem de Pedro? Não iria com Cristo até a morte? Fraquejou? Estava com alguém conhecido na casa. Será que estava tão em risco assim? Com o perdão do péssimo trocadilho, o galo cantou e Pedro se revelou “um” galinha… Um covarde.

Como já disse, tenho muito em comum com Pedro. Infelizmente, nesse aspecto também. Nego a Cristo algumas vezes na vida. Sou destemido para apontar afrontas ao nome de Deus feitas por aí. Às vezes, se pudesse, pularia no pescoço de alguns falsos mestres da atualidade. Apóstolos, pastores, bispos, cantores… Que raio de Deus é esse que pregam? Discuto com quem os defende, denuncio suas mentiras, faço texto, posto frases… Porém, muitas vezes me falta coragem para fazer algo mais eficaz. Testemunhar de Jesus ou mesmo viver algo que condiga com o que creio. Às vezes omito opiniões que seriam contrárias às de amigos intelectuais. Não quero ficar mal com eles. Evangelismo? Tenho vergonha, sou tímido… Por vezes sou um agente secreto do Reino. Não chego a negar a Cristo textualmente. Mas, em vários momentos não faço muita questão de dizer a quem sigo.

Sabe o que me consola? Siga acompanhando a história de Pedro. Deus não desiste dele de modo algum. Lá em Atos, no relato da descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, quem se levanta para fazer um dos mais ousados discursos que se vê no Novo Testamento? Pedro! Parece que a coragem volta. Mais forte, mais firme. Ele passa a ser a personagem central do início da expansão do Evangelho. Apanha, é preso e se alegra nisso tudo. Sem medo. Uma coragem que vem do alto, dada pelo Espírito Santo de Deus. Temos um novo Pedro! Ele ainda cai. Hesita em ir pregar para o gentio Cornélio. Faz uma média com os judaizantes, quando os encontra em Antioquia. Ainda era o Pedro imperfeito. Mas, um Pedro mudado pelo Espírito. Ainda há esperança para gente como eu. O Espírito que operou em Pedro tem operado em mim. Aos poucos a coragem aumenta, as posições ficam mais firmes e a timidez vai se esvaindo. A obra do Espírito será longa, essa casa aqui está um caco. Mas, Ele é poderoso para transformar quem Ele quiser. Que um dia possam lembrar-se de mim como de Pedro. “Lembra aquele cara tímido? Lembra aquele cara que perdia algumas convicções quando apertado. Mudou. Mudou não. Foi mudado. Pelo Espírito Santo de Deus”. Que assim seja.

Soli Deo Gloria

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A dor da oniciência

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Continuando a falar sobre a Páscoa, quero tratar hoje da figura central da Páscoa cristã: Jesus Cristo. O primeiro ponto importante é deixar claro que Jesus não foi uma solução emergencial de Deus para o pecado. Claro que a figura que usarei é exagerada, mas, é quase assim que muitos pensam. Deus estava em seu alto e sublime trono de frente aos vários monitores mostrando as imagens do Éden. Olha pra um e vê os belos pássaros e comenta entre a Trindade: “Que belas cores que criamos!”.  Olha pra outro e vê animais correndo pelos campos e diz: “Como é bela a diversidade de espécies que criamos”. Por fim olha pra um monitor e vê o primeiro casal comendo da árvore do conhecimento e diz: “Que bonito ver o homem se alimentando da… ÁRVORE DO CONHECIMENTO! NÃO!!!! E AGORA?” E Ele se desespera sem saber como resolver aquele problema; o homem pecou. Nada disso. Deus não é pego de surpresa jamais, tudo que acontece está sob seus decretos. Por mais que seja bem complexo pra nós, meros mortais, entender como isso pode funcionar. A vinda de Jesus para redimir a humanidade do pecado já era algo decretado desde a Eternidade passada. Por que? Como? Não faço ideia, só sei que é essa a verdade.

Jesus veio ao mundo como homem, completamente homem; mas, continuou sendo Deus, completamente Deus. Se tem algo que gerou uma série de confusões no início do cristianismo foi isso. Docetistas diziam que Jesus só tinha aparência humana, ebionistas negavam sua divindade, arianistas negavam sua eternidade e eutiquianistas falavam sobre uma natureza híbrida, meio divina e meio humana. E olha que nem coloquei todas as teorias! E, cá entre nós, entender essa situação de 100% homem e 100% Deus não é algo que a racionalidade dê conta sozinha. OK, mas, onde eu quero chegar com isso? Jesus possuía a natureza divina, logo, um dos atributos que Ele tinha era a oniciência. Ele sabia tudo o que acontecia e aconteceria com Ele. Além disso, Jesus não veio ao mundo enganado. Sabia que seu destino era a cruz. Deus não fez nenhuma pegadinha como seu Filho. O sacrifício vicário era plano e consenso da Trindade.

Muitos podem pensar o seguinte: “Legal, e que mal há em ser oniciente? Seria um sonho! Saberia tudo, ninguém me enganaria, ficaria milionário!!!” É, vai ver que é por isso que Deus não nos permitiu ser assim. Seria como dar uma ogiva nuclear pra um macaco cuidar. Certamente daria um belo desastre. Imagine a situação de Jesus. Ele sabia exatamente o que aconteceria com Ele. A cruz, a humilhação, a traição de Judas, a negação de Pedro… TUDO! Ele sabia que a maioria dos elogios que recebia eram falsos. Já se sentou à mesa com alguém que você sabe bem que não gosta de você? É bem desagradável. Jesus não só sentava à mesa com fariseus hipócritas como sabia cada pensamento que tinham acerca Dele. Sabia que a imensa maioria da multidão que o seguia não o fazia por amor e sim pelo que Ele podia dar. Sabia cada dor que teria. Jesus amava seus amigos. Mas, sabia cada pensamento e desconfiança que tinham sobre Ele. Cada dor que cada um de seus amigos enfrentaria não era surpresa para Ele. Jesus jamais teve surpresas, cada golpe que levaria era absolutamente sabido. Seria isso algo tão bom assim?

Agora vem nossa mente humana e diz: “Se eu soubesse disso tudo, evitaria os problemas, né?”. Esse é o ponto doloroso. Como disse o profeta Isaías: “Ele foi oprimido e afligido, contudo não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado para o matadouro, e como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca“. É evidente que Cristo poderia evitar o que houve com Ele. Mas, Ele não quis fazê-lo. Ele sabia quem era Judas e o que ele faria naquela noite. Ele sabia todos os açoites que levaria. Sabia o peso daquela cruz, sabia da zombaria dos soldados e do povo. Sabia que muitos daqueles pelos quais ele só fez bem prefeririam Barrabás.  O Mestre sabia que seus discípulos fugiriam, sabia de cada lágrima derramada por sua amada mãe. Ele não ignorava as dores da cruz, a lança que O perfuraria, os pregos que O prenderiam naquele madeiro. Sabia que enfim seria coroado, mas, com uma coroa de espinhos, para que fosse mais humilhado ainda. Não lhe era oculto que os soldados repartiriam Suas vestes, que lhe dariam vinagre para “matar” a sede. Cristo sabia o que sua morte significaria imediatamente para Seus discípulos e seguidores, uma enorme decepção. Enfim, Cristo enfrentou tudo aquilo não só consciente como presciente. E não deixou sua missão.

Jesus não estava arriscando sua vida, mesmo com poucas chances de êxito, por uma causa. Ele estava entregando sua vida por pecadores. Não esperava que tivesse a clemência de seus detratores. Sabia que morreria e da forma mais humilhante que havia na época. Entender esse lado da história é valioso e faz com que tenhamos mais gratidão ainda pelo sacrifício do Cordeiro. Nada lhe foi omitido, Ele não pestanejou diante de tudo que Ele sabia que iria sofrer. Tudo isso pra cumprir um propósito maior: sofrer a morte que era destinada a nós pecadores. Naquele madeiro Ele experimentou uma experiência inédita e extremamente dolorosa: não ter a comunhão com o Pai. Sobre Ele estavam todos os pecados, não havia como o Santo Deus se relacionar com Ele nesta situação. Todo o pecado estava sobre Cristo, por livre e espontânea vontade. Deus executou o juízo que era contra nós em seu Filho. E sobre nós foi imputada a Justiça do Cordeiro imaculado. Estava consumado! A vida triunfaria sobre a morte. Há como não se emocionar com isso?

Bendito seja o Cordeiro que veio justificar o pecador e nos transportar para o Seu Reino. Santo é o Cordeiro que veio em nome do Senhor. Todo louvor seja dado a Ele pelos séculos dos séculos.

Soli Deo Gloria

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A origem da Páscoa

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Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que não farei uma séria profunda, com diversos conceitos teológicos complexos.  Quero apenas trazer à memória a história que mudou a minha vida e, quem sabe, a sua também. Caso não seja seu caso, que esses relatos façam você conhecer melhor a mais bela de todas as histórias, a História da redenção do Mundo.

Esta semana pretendo meditar um pouco na importância da Páscoa para nós Cristãos. Mas, começarei bem antes, lembrando como a festa teve seu início. Muitos acham que a primeira Páscoa aconteceu há mais ou menos 1980 anos, com a ressurreição de Cristo. Pois bem, estão bem enganados. A História da Cruz, morte e ressurreição de Jesus Cristo, resignificaram a festa, mas, não é esta a origem dela.

Deus escolheu Abraão para dele fazer uma grande nação, o Povo de Deus. A linhagem de Abraão continuou através de Isaque e Jacó, que viria a ser chamado Israel, o nome da nação. Jacó teve 12 filhos e um deles teve destaque especial, José. Primeiro filho da mulher amada de Jacó, Raquel, José era o mais querido pelo pai, gerando uma enorme inveja nos irmãos. Num dado momento estes fizeram-lhe uma emboscada e venderam-no para mercadores midianitas que o repassaram para egípcios. José passou por uma série de dificuldades no Egito, mas o Senhor estava com ele. No final, ele foi colocado pelo próprio Faraó como governador do Egito e acabou sendo o responsável pelo país resistir a um severo período de fome que acometeu o Oriente Próximo por sete anos. Depois de algum tempo e vários contratempos, José mandou buscar o pai e os irmãos para morar no Egito, na região de Gósen, onde ficaram por muito tempo e cresceram muito em número e posses. De forma bem resumida, foi dessa forma que os israelitas foram parar no Egito.

Um bom tempo depois da morte de José, subiu ao poder um Faraó que não o conhecia. Este, preocupado com o crescimento do povo hebreu e temendo por uma insurgência, decidiu torná-los escravos. O tratamento a eles não era dos mais agradáveis e por 400 anos ficaram subjulgados em uma terra estranha. Num dado momento Deus levantou Moisés para tirar seu povo do Egito e trazê-los para a Terra Prometida por Deus a Abraão, Isaque e Jacó: Canaã. Evidentemente o Faraó não iria facilitar a saída dos hebreus, uma enorme força de trabalho escrava, de seus domínios. Ainda mais porque Deus endureceu seu coração para que ele não deixasse o povo sair do Egito. Deus mandou, então, nove pragas para convencer o Faraó de duro coração a libertar seu povo. Transformou a água em sangue, infestou o país todo de rãs, depois piolhos e moscas, mandou uma peste sobre os animais, feridas sobre a pele das pessoas e animais, uma violentíssima tempestade de granizo, uma nuvem de gafanhotos que devastou o que sobrou da lavoura e, por fim, uma escuridão total por três dias.  Mesmo com tanta desgraça, o obstinado Faraó não libertaria o povo. E, depois de todo esse resumo, podemos explicar o início da Páscoa.

Deus decidiu que iria acabar de vez com o sofrimento de seu povo dessa vez. A décima praga seria tão impactante que não haveria mais como os egípcios manterem os israelitas em seu território. É importante lembrar que as pragas não foram escolhidas a esmo por Deus, cada uma delas afrontava uma divindade egípcia, mostrando a eles quem era o verdadeiro Deus. Porém, esse estudo fica pra outra ocasião. O que aconteceria agora é que todos os primogênitos do Egito seriam mortos naquela noite. Tanto de animais quanto de pessoas, inclusive o filho do Faraó. Cada família do povo de Israel deveria separar um cordeiro ou um cabrito de seu rebanho e no dia determinado sacrificá-lo. O sangue do animal deveria ser passado nos umbrais da porta para indicar que ali estava uma família israelita e o anjo da morte não deveria matar ninguém daquela casa. Eles deveriam se reunir a noite para comer a carne do animal assado, além de pão sem fermento e ervas amargas. Todos deveriam estar prontos para partir, porque naquela noite o Senhor executaria juízo contra os egípcios. E foi o que aconteceu. Nunca se ouviu tamanho pranto em todo o Egito. Em todas as casas havia um morto, exceto entre os israelitas. O povo egípcio clamava para que os israelitas fossem embora. Em fim, a escravidão havia acabado!

Assim ficava instituída a Páscoa, ou Pessach numa transliteração do hebraico. A palavra significava “passar por cima” em referência ao fato do anjo destruidor não passar pelas casas “protegidas” pelo sangue do cordeiro aspergido nos batentes das portas. Até hoje os judeus comemoram a Páscoa lembrando como Deus poupou os primogênitos de Israel e libertou o povo da escravidão na terra do Egito. Reúnem-se e lembram a História da libertação do Egito para que todas as gerações saibam o que houve naqueles tempos. E no tempo de Jesus não era diferente. Todos os acontecimentos da morte do Messias foram na semana de comemoração da Páscoa judaica, por uma série de motivos que mencionarei nos próximos textos. Espero que o texto tenha servido para lembrar alguns e, quem sabe, contar a outros o origem da Páscoa. Amanhã vamos começar a contar como essa data foi resignificada como o sacrifício e ressurreição de Cristo, nosso Cordeiro Pascal.

Soli Deo Gloria

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Miserável

Se você já acompanha o blog deve ter visto que alguns posts aqui são quase que desabafos. Angústias, tristezas, crises que passo para a tela (antes era para o papel…) para entendê-las melhor e, quem sabe, resolvê-las. Às vezes escrevo pra clarear ideias, ver se algo que estou pensando faz algum sentido. Não raras vezes deixo o texto pela metade por perceber que é uma bobeira minha. Além disso, tenho uma relação de amor e ódio com as redes sociais. Se por um lado elas me ajudam a estar a par de uma série de coisas muito interessantes, por outro elas me expõe a pensamentos que me assustam. “Como Fulano pode pensar assim? Como Beltrano pode acreditar nisso? Como Cicrano pode ter virado essa pessoa?” Estes pensamentos povoam minha mente por diversas vezes.

Hoje não foi diferente. Ao ler alguns distribuindo acusações sem fundamento ao cristianismo já fui ficando irritado. Pensamentos vinham à tona. “Como assim? Nem sabe do que está falando…” Pior quando são pessoas que já tiveram contato com a fé cristã e com a igreja. “Ah, tá. Quando ficava levantando a mão no louvor tava tudo bem…” “Quando ia à paróquia rezar pra melhorar de vida não reclamava…” Por um momento pensei em orar como Davi, no Salmo 139, “Quem dera matasses os ímpios, ó Deus! Afastem-se de mim os assassinos! Porque falam de ti com maldade; em vão rebelam-se contra ti. Acaso não odeio os que te odeiam, Senhor? E não detesto os que se revoltam contra ti? Tenho por eles ódio implacável! Considero-os inimigos meus!” Minha “justiça” vinha com toda a força, queria que Deus mostrasse quem Ele realmente é para esses abusados.

Depois, caí em mim. Pensei, graças à Santa intervenção do Espírito: Deveria orar por eles… São pessoas boas, no fundo estão apenas lutando pelo que acham certo. Preciso ser piedoso, preciso ter compaixão… Já orava como Cristo: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo”. Pronto, outro tombo. Se há instantes a ira me tomava, agora era uma certa arrogância espiritual; autojustificação mesmo. Já olhava pra mim como um cara especial. Esquecia que minhas obras de justiça eram pano imundo. Nada disso, sou diferente destes. Engano…

Aí novamente percebi que estava errado. Que mérito há em fazer o bem por vanglória? Ou praticar algo bom pra se encher de orgulho? É triste, mas, essa soberba combina muito com o ser humano. Lembrei-me de Paulo “Miserável homem eu que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?” Miserável. É isso que sou e que somos. Miseráveis. Não há méritos em nós. O bem que fazemos vem de Deus e só Dele. Não há justiça em mim pra julgar o pecador tampouco pra me declarar inocente ou melhor que alguém. Sou dependente da Justiça de Cristo, imputada sobre mim na Cruz. Sem ela, que fim seria o meu? Como me ensoberbecer como o perdão, se eu mesmo dependo do perdão remidor de Deus? Sem a Graça de Deus, não estaria eu fazendo o mesmo que hoje critico? Sem o trabalho do Espírito em mim, não estaria eu também no lugar onde todos estariam por natureza: longe de Deus? Miserável. Totalmente dependente. Sozinho não sirvo pra nada. Nada. Como uma criança que precisa dos pais pra poder comer, assim eu preciso da misericórdia do Pai pra não ser derrotado por mim mesmo.

Peço a Deus que esse texto não gere nenhuma sensação de superioridade, de uma piedade elevada. Que me gere contrição, necessidade de buscar mais ainda a Ele e a certeza que o processo de santificação será longo e doloroso. E que, ciente de tudo isso, ao invés de ter raiva de queridos que hoje estão distantes de Deus e desdenham da necessidade desse Pai amoroso, eu tenha um ardente desejo de orar por eles. Devemos amar ao próximo professando ele a fé que professe, caçoando de nós o quanto caçoe. Misericórdia dos filhos pródigos, Senhor! E misericórdia dos “filhos mais velhos” também…

Soli Deo Gloria

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Humilhando o intelecto

O que me inspirou a escrever este post foi uma aula do Jonas Madureira, no Seminário Martin Bucer, transmitida via web ontem à noite. Quem me conhece sabe, mesmo não o conhecendo pessoalmente, o quanto admiro o Jonas. Foi uma pregação dele em minha igreja, em 2011, que me deu o impulso final para buscar estudar mais essa arte que é a Teologia. A aula era sobre Propedêutica da Teologia, grosso modo, uma introdução ao estudo teológico. Num dado momento foram colocadas algumas características do teólogo, e é sobre isso que eu gostaria de refletir.

A que me chamou mais atenção foi o que chamo aqui de humildade intelectual. Esta humildade começa quando entendemos qual é a importância de nosso labor teológico em face à capacitação dada por Deus. É sempre bom lembrar um pouco de nosso estado inicial. No Salmo 119, o salmista diz: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei”. Se Deus não nos tivesse “tirado a venda dos olhos”, não veríamos as coisas do alto, buscássemos o quanto quiséssemos. Mas, a coisa não é tão simples assim. Por melhor que seja sua visão, do que ela te serve em densas trevas? Feche-se num quarto completamente fechado e escuro e onde você não está acostumado a andar. Certamente vai tropeçar em algo, ou, vai acabar preferindo ficar parado pra não se ferir… Sem luz, não adianta a visão. Paulo deixa isso bem claro em 2 Coríntios 4.6: “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo”. Se Deus não nos desvendar os olhos e não iluminar o conhecimento, de nada adianta nosso estudo. Como pode alguém, então, se sentir autossuficiente diante disso? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Rm 11:36). Somos uma flecha. Deus é o arco. Deus é o alvo. Isso deve colocar nossa capacidade em seu devido lugar. Se por um lado é desesperador – nada posso fazer por mim mesmo – por outro é consolador: sei bem em quem tenho de confiar.

Outro ponto que me chamou muito a atenção foi a citação de uma analogia de J.I.Packer. O teólogo (ou pregador, ou professor) deve iluminar o que é importante e não a si mesmo. Simples assim. Não faz sentido um holofote se “auto iluminar”. Ele lança luz ao que é importante. E no nosso caso, a Palavra de Deus. O bom ensino da Palavra não é aquele que destaca o “ensinador”. O bom ensino é aquele que foca de tal maneira na Palavra que Ela que será lembrada pra sempre. Quem a ensinou é mero coadjuvante, uma simples ferramenta. Quase todos que gostam de carro identificam uma Ferrari. Poucos sabem o nome do projetista daquele modelo. Deve ser assim com a Palavra. Ela é o foco, o mérito é do Deus da Palavra. O transmissor é apenas uma ferramenta.

Para alguém como eu, que está iniciando no estudo teológico, isso é uma pedrada. Bendita pedrada! Nosso talento, inteligência, capacidade e esforço pouco servem se não estiverem direcionados por Deus. A verdadeira Teologia aponta Deus e humilha o homem. Ela deve nos mostrar quem somos diante de Deus e, mesmo assim, o quão Ele faz por nós. A verdadeira Teologia deve provocar adoração e gratidão. A arrogância teológica não passa de vã filosofia. E, citando Shakespeare, jamais poderemos entender os mistérios entre o céu e a terra nos valendo só dela.

Soli Deo Gloria

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