Arquivo do mês: fevereiro 2013

Menos Javert, mais Jean Valjean

Não sei se você assistiu ao filme “Os Miseráveis”. Eu não sou um cinéfilo, longe disso. Menos ainda um apaixonado por filmes musicais. Na verdade, em geral, os acho chatos. Porém, o filme baseado na obra de Victor Hugo me cativou. Não só pelo fato de as músicas não serem fofinhas e apelativas, mas, pela história toda, muito bem mostrada no filme. As duas personagens do título acabam sendo o ponto de tensão sobre o qual tudo se desenrola. E é muito interessante como as atitudes deles podem nos ensinar.

Javert é um inspetor de polícia, o homem da lei. Incrivelmente sério, ele não admite que nenhum crime passe em branco. Do maior ao menor, é necessária uma punição, de preferência severa. Manter a paz, a lei e a ordem é a obcessão dele, não medindo atitudes para impedir o “mal”.

Jean Valjean é um ex-prisioneiro. Foi preso, inicialmente, por roubar um pão para alimentar a pequena sobrinha. A pena de 5 anos foi acrescida a outros 14, por várias tentativas de fuga da galés. Este tempo o torna uma pessoa rancorosa, disposto a tudo para se vingar da injusta forma como foi tratado tanto pela lei quanto pela sociedade. O rancor só aumenta com a saída da prisão. É escorraçado de todos os lugares em que busca  trabalho ou abrigo por ser um ex-prisioneiro.

Pois bem, o que as duas personagens têm a nos ensinar? Ambos são alvo de misericórdia, mas, agem de forma extremamente diferente. Valjean, já sem grandes esperanças é acolhido em uma igreja. Lá é tratado como há muito tempo não era, mas, enquanto todos dormem, furta alguns objetos. Foge, é capturado e levado ao bispo, com os objetos furtados. Para sua surpresa, o bispo não confirma a versão de Valjean de que os objetos eram presentes como ainda lhe dá outros objetos. A misericórdia do bispo muda a vida de Valjean. Ele foge da condicional e muda sua vida, tornando-se um benfeitor. Entre outras coisas, adota uma pequena garota a quem trata com um amor enorme.

Javert também é alvo de misericórdia. Capturado pelos insurgentes por ser um espião, fica frente a frente com o rival Valjean.  Desde a fuga da condicional, Javert fazia de tudo para capturar Valjean. Naquele momento, as coisas se invertiam. Javert estava preso e Valjean poderia matar o algoz e, enfim, ficar livre. Mas, surpreendentemente, Valjean misericordiosamente liberta o algoz. Mas, Javert não soube lidar com isso. Sua autojustiça era grande demais para “dever” favores a um fora da lei. Em crise, se suicida.

Evidentemente isso tudo é uma ficção, com nenhuma intenção de trazer ensinos cristãos. Porém, há uma coisa que me fez pensar. Como agimos perante a misericórdia? Principalmente, como agimos perante a misericórdia de Deus? Como Valjean, que, ao ser alvo de grande misericórdia dá frutos de misericórdia, mostrando bondade com o próximo? Ou como Javert, cuja justiça era grande demais para precisar de misericórdia e que odiava mais o mal que amava o bem? Pra pensar, não? Até porque, sem misericórdia, certamente não viveríamos.

Soli Deo Glória

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E se for da vontade de Deus..

A frase que dá título ao post é um cacófago. Pra quem não se lembra das aulas de português, cacofonia ou cacófato é o nome que se dá a sons desagradáveis ao ouvido formados muitas vezes pela combinação de palavras, que ao serem pronunciadas podem dar um sentido pejorativo, obsceno ou mesmo engraçado. Não creio que eu precise explicar o cacófago formado pela frase. E sabe o pior? Muitas vezes agimos de acordo com esse sentido distorcido.

Ao ensinar seus discípulos a orar, Jesus os instrui a pedir que a vontade de Deus seja feita. Aprendemos a fazer igual e nem sempre prestamos atenção ao que isso significa. Por vezes, pedimos a vontade de Deus porque é uma das “regras de ouro” da oração. Na verdade, pouco nos importa a vontade do Pai, falamos só da boca pra fora, pra mostrar nossa espiritualidade e, pra fazer a oração conforme a receita original.  Às vezes, a intenção é das melhores, estamos sendo humildes mesmo, “permitindo” que Deus faça Sua vontade. O que, cá entre nós, é até engraçado. É como se Deus, ao ouvir-nos pedindo sua vontade, suspirasse aliviado e dissesse: “Ufa. Permitiram que eu fizesse do meu jeito. Imagina se não permitissem, teria que fazer como eles querem”. Modéstia nossa, não?

Eu creio que, ao pedir a vontade de Deus, não só estamos reconhecendo a soberania do Pai como estamos falando para nosso próprio coração que por mais que eu tenha um desejo, este não será o que definirá o que acontecerá. A vontade soberana do Pai é que dará a resposta. E o melhor, como diz Romanos 12:2, esta é “boa, perfeita e agradável”. O texto de Provérbios 16 é claro, também: “O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor”. Deus ouve nossas orações, porém, nem sempre responde segundo nosso coração enganoso. E quer saber, isso é um grande alívio.

Legal, e como não se decepcionar com Deus? Algumas dicas são importantes aqui. A primeira é não colocar promessas que Deus nunca fez em sua boca. Sim, ele abrirá portas. Porém, nem sempre aquelas que achamos melhores. Sim, Ele cuidará de nós. Mas, Ele também deixa claro que teremos aflições. Os exemplos são vários e não quero ser cansativo. Além disso, a comunhão com Deus nos ajuda muito. Conhecemos bem nossos pais terrenos. Sabemos bem o que podemos ou não podemos pedir pra eles. Conhecemos as vontades deles e jamais pediríamos algo que afronte o caráter deles, pois sabemos que teremos um não. Devemos ter esse tipo de relacionamento com Deus. Na oração e na leitura da Palavra, buscar conhecer a Deus e entender que tipo de coisas devemos pedir ao Pai. Claro que isso é uma longa caminhada, mas, o fim dela é um conhecimento de um Pai justo e amoroso, que jamais nos deixará faltar nada que precisamos, mas, jamais permitirá que nosso egoísmo direcione nossa vida.

Conhecer a Deus é a grande chave. Saber quem Ele é nos dará uma confiança tão grande que pedir que sua vontade seja feita em nós será algo natural. Ela é perfeita, que mais eu poderia querer. Lutemos pois para alcançar o verdadeiro conhecimento do Pai.

Soli Deu Gloria

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Está por vir?

De tempos em tempos novos chavões tomam conta do vocabulário evangeliquês. Uma das expressões em voga diz que “o melhor de Deus ainda está por vir”. Pois bem, quem me conhece sabe o quanto essa expressão me agride. Porém, pensando bem nela e analisando o contexto que é usada, vemos que ela nem sempre está totalmente incorreta.

Comecemos pensando nesta expressão dita por alguém que professa a religião judaica. Como se sabe, Jesus não é aceito pelos judeus como o Messias prometido por Deus através de Moisés e os Profetas. Eles certamente aguardam o melhor de Deus; o Rei prometido que irá livrá-los dos sofrimentos, reunir o povo e reinar sobre um novo Israel. Para um judeu, cuja fé é bastante escatológica, esperar a vinda do Messias é esperar o ápice da História. Portanto, faz sentido a frase faz todo sentido para eles.

Há outra possível aplicação para a famigerada expressão. Neste caso a afirmação pode remeter aos tempos vindouros, à plena instauração do Reino de Deus através da volta de Cristo. “O melhor de Deus” se referiria aos Novos Céus e Nova Terra, ao Reino do Cordeiro onde “não haverá mais lágrima nem dor”. Certamente é a melhor coisa que irá acontecer aos que creem. O dia da verdadeira vitória, do reinado do Cristo! Por mais que isso tudo é consequência da primeira vinda de Cristo e de Sua morte redentora na cruz, a frase faz sentido.

O problema maior é que raramente a frase é dita em algum dos contextos acima. Normalmente é usado num momento de consolo a alguém que está passando por uma grande dificuldade ou, pior, como uma “confissão positiva”. É um modo de dizer que Deus tem algo bom para oferecer à pessoa, que tudo passará… É evidente que intenção é das melhores. Uma palavra de consolo e de esperança é sempre bem vinda em certos momentos. Porém, neste contexto, a frase está completamente errada. O melhor de Deus já veio; é Jesus Cristo. Nem a mais milagrosa cura, nem todo o dinheiro que há no mundo nem tampouco a ressurreição de um parente amado podem ser comparados ao significado da morte de Jesus na cruz, por nossos pecados. Qualquer outra benção tem prazo de validade, esse tempo finito. A Salvação que Cristo nos trouxe é eterna.

Pense bem antes de falar essa frase. Ou você não está pensando direito antes do que diz ou há algo pra você que representa mais que a salvação em Cristo. Certamente há algo bem errado com isso.

Soli Deo Gloria

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E se Deus deixasse de fazer milagres?

Antes de tudo, quero deixar claro que acredito em milagres. Mais que isso, tenho convicção que Deus opera em nossos dias como já operou no passado. Porém, não é bem isso que queria que pensássemos. Como seria nosso amor por Deus se Ele, em sua soberania, decidisse não agir mais?

Creio que já tenha ouvido, ou até visto, alguma história como essa. A mãe dedica a vida toda pelos filhos. Deixa seus sonhos em segundo plano, trabalha o dobro, faz de tudo pelo bem de sua família. Os filhos, felizes, sempre demonstravam amor à dedicada mãe. Pois bem, um dia essa mãe cai doente e já não pode mais ser “útil” como antes. Muitos filhos retribuem todo o carinho e afeto cuidando dela pelo resto da vida. Mas, outros tantos, colocam-na num asilo e mal vão visitá-la. Dói ver tamanha ingratidão, não? Será que realmente amavam à mãe ou apenas a si mesmos e o que ela os dava?

É evidente que Deus jamais cairá doente, muito menos precisará de nós. Mas, como na história acima, será que amamos mais a Deus ou amamos mais o que Ele nos dá? Pelo que tenho lido, visto e ouvido da igreja de nossos dias, Deus não passa de um provedor. Alguém que está lá, pronto para responder nossos pedidos na hora que quisermos. E ai dEle se a resposta não for a esperada. Assim como se coloca a imagem de Santo Antonio de ponta cabeça até que o santo “responda” o pedido, tem-se posto Deus na parede. “Hoje Ele agirá”, “hoje é o dia do seu milagre”, “se Ele não fizer…”. Isso é paganismo, nada tem a ver com o relacionamento que a Bíblia nos ensina.

Não foi bem assim que Habacuque agiu. Ao reconhecer a soberania de Deus diz: “Mesmo não florescendo a figueira, não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos, ainda assim eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação.” Hc 3:17-18

Faça uma análise sincera de sua relação com Deus. Será que ama a Deus pelo que Ele é ou pelo que Ele faz? Será que adora a Deus ou a você mesmo e seus desejos? Deus não deixará de te abençoar, mesmo suas intenções não sendo as mais corretas. Mas, tenho certeza que Ele se alegrará ao ver um coração sincero, adorando-O apenas pelo que Ele é, não esperando nada em troca.

Que o Senhor nos ensine a amá-lO de todo o nosso coração, não pelo que Ele pode nos dar, mas, pelo que Ele é.

Soli Deo Gloria

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