Façamos bons sapatos

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Nesta quinta-feira, 31/10, comemorou-se os 496 anos da Reforma Protestante. Neste dia, no longínquo ano de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero pregou suas 95 teses na porta da Catedral de Wittenberg(Alemanha), onde condenava os desvios da Igreja Católica da época em relação aos ensinos da Bíblia. A partir deste marco, uma série de mudanças foi ocorrendo por toda a Europa resultando, entre outras coisas, na plantação de igrejas como a nossa no Brasil.

Poderia discorrer aqui sobre os impactos espirituais da Reforma, sobre seu lema (os 5 Solas) ou sobre a obstinação de homens como Lutero na defesa da Palavra de Deus. Poderia escrever, também, sobre os impactos dela na educação, arte, economia, justiça social e tantas outras esferas da sociedade. Porém, decidi abordar um ponto pouco falado que foi uma das mais importantes contribuições da Reforma para a Igreja Moderna: o resgate da vocação.

Vocação é a tendência ou aptidão de alguém para desenvolver uma atividade ou um ofício. Médico, pedreiro, advogado, feirante, enfim, qualquer atividade.  Porém, de forma absolutamente errada, entende-se que para servir a Deus plenamente a pessoa precisa de um chamado especial, como o de pastor, missionário, entre outras funções eclesiásticas. Os outros só poderiam servir a Deus no culto, e como meros coadjuvantes. Este foi um dos pontos que os reformadores criticaram, e com base bíblica. O texto de 1 Pedro 2:9 é claro quando diz que: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.

Tudo bem, mas, como eu posso usar meu ofício para isso? Diz-se que certa vez um sapateiro chegou para Lutero e perguntou como poderia fazer para servir a Deus. Provavelmente esperava que ele o incentivaria a fechar a sapataria e se dedicar exclusivamente à pregação do Evangelho. A resposta de Lutero, porém, foi surpreendente. “Faça um bom sapato e venda por um preço justo”. Isto é maravilhoso! Podemos servir a Deus com a nossa profissão, ser sal e luz do mundo no lugar onde estivermos. Afinal foi Deus quem nos colocou ali. E não só para levarmos a sua Palavra como para, com nossas atitudes, darmos uma pequena amostra do que é e será o Seu Reino. Logo, o trabalho é uma benção de Deus e todos estamos em missão para que “venha a nós o Seu Reino”.

Pense nisso esta semana quando estiver servindo a Deus atendendo pessoas, consertando uma porta ou vendendo um produto. “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens”. (Cl 3:23). Glorifique a Deus com seu trabalho!

Soli Deo Gloria

 * Texto originalmente escrito como pastoral do boletim da ICE Nova Vida do dia 03/11/2013

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Uma carta a Lutero

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Caro Lutero,

Por força do hábito ia começar perguntando se está tudo bem. Mas, lembrei que você está na Glória, com o Pai. Certamente está… Por aqui é 31 de outubro e estamos comemorando o Dia da Reforma. Por isso te escrevo, para agradecer sua coragem e determinação na luta pelo verdadeiro Evangelho. Sim, eu sei que nada disso ocorreria sem a Graça de Deus. É evidente que ele te escolheu, capacitou e iluminou para que fizesse isso. Evidentemente, também, outros homens, como Jan Huss, John Wycliff, Girolamo Savonarola e outros abriram o caminho para o que você iniciou lá em Wittenberg. Mas, não seja modesto; sua contribuição foi fundamental.

Bem, admito que não tenha notícias muito boas daqui. Alguns “protestantes” não entenderam bem o que você e os outros reformadores propuseram. Digamos que Johann Tetzel seria um amador perto deles… Voltaram a vender o Evangelho, amigo. Por bênçãos, cura, prosperidade… Muito tempo depois de sua partida inventaram a TV. Basicamente, é um aparelho que transmite som e imagem para qualquer lugar. Não tem ideia do que estes caras fazem para poder aparecer nela. Enquanto há irmãos sofrendo, passando necessidades, há líderes da igreja esbanjando muito dinheiro. Inventaram o trízimo! O nome indulgencia foi abolido, mas, o conceito não. E não estão muito interessados no tilintar da moeda. Querem muito mais que moeda. Muito triste.

Sei, também, que era um grande músico. Pois aí temos outro grande problema dos nossos tempos. É lamentável como a maioria das músicas ditas cristãs de hoje nada refletem da Graça de Deus. Só pedem. São músicas centradas no homem. Sei que teve uma discussão com Erasmo de Roterdã sobre o humanismo dele. Creia, perto do que temos hoje, ele nem era tão ruim assim. E a qualidade musical? Terrível! Inclusive o pessoal não tem gostado muito de seu lindo hino Castelo Forte. Primeiro acham muito “parado”. Não dá pra pular, pra dançar… Segundo, há um grande problema com aquele trecho que diz: “Se temos que perder; família, bens, poder. Embora a vida vá. Por nós Jesus está”. Dizem que isso não é um discurso de um cristão. É muito derrotismo. Dizem que você tinha é que ter declarado a vitória! Ter determinado que Deus te desse tudo. Afinal, crente que é crente não sofre… Sim, irmão Lutero, o pessoal tem cantado isso. Adoram pedir pra Deus restituir de volta o que era deles. Até acho que Deus deveria fazer isso mesmo. Restituir a perdição antes de Cristo. Sorte deles que o Pai é amoroso…

Lembro que lutava contra o fato do Papa ser um ser superior aos outros crentes. Pois bem, acredita que no meio “protestante” temos algo parecido com o Papa? Sim, temos apóstolo, paipóstolo, arcanjo… O que tem de homem tentando usurpar a glória de Deus é uma enormidade. Comportam-se como se fossem o único elo entre Deus e os fieis. Arrogam para si uma condição de infalibilidade. Sacerdócio universal dos crentes? Jamais! Eles querem fazer o povo pensar que sempre precisarão deles. São absolutamente autoritários e tirânicos. Ai de quem discordar deles. E estão em todas as denominações. Ah, me esqueci disso. Nos dividimos em várias denominações. O protestantismo não tem a menor unidade. Brigamos por forma de batizar, de tomar a ceia, de usar os dons.  É feia a coisa aqui, amigo.

Tenho, também, más notícias de sua terra natal e de sua igreja. Foi lá que surgiram os principais expoentes de um movimento que busca diminuir a autoridade da Palavra de Deus, transformar a Bíblia num mito, diminuir os milagres de Cristo e, acredite, diminuir até a importância do sacrifício vicário de Jesus. Segundo eles, nós que acreditamos na veracidade dos fatos bíblicos somos inocentes que não entendemos nada… Parece que este movimento perdeu força, mas sempre arruma algum jeito de voltar. Se aqui ainda estivesse, seria chamado de fundamentalista…

Porém, caro irmão, embora temos todos estes problemas, há muito que comemorar. Vemos muitos e muitos jovens se voltando à sã doutrina, querendo resgatar aquilo que você já havia resgatado no seu tempo: a verdadeira mensagem do Evangelho. Até em sua querida Igreja Católica (sim, sei que o que realmente queria não era uma separação e sim uma mudança de rumos) vemos pessoas buscando as doutrinas da Graça. Depois de você muitos homens e mulheres de Deus vieram e lutaram bravamente para que o Evangelho de Cristo fosse retomado. O invento de Gutemberg prosperou. Hoje é fácil achar livros sobre o nosso Deus. E a Bíblia, então? Fala-se que a temos em 2.250 idiomas! É o livro mais vendido na História. Seu sonho de coloca-la ao alcance de todos é uma realidade. Glórias sejam dadas a Deus!

Por enquanto é isso, amigo. Quem sabe logo te escreva contando novidades melhores. Um dia nos conheceremos pessoalmente. Espero que, no tempo aqui da Terra, demore um pouquinho… Mande um abraço para o pessoal aí. Pra Melanchton, Zwinglio, Calvino, Bucer, Beza, Farel, Knox, enfim, pra todos esses pedreiros da Reforma. Somos gratos ao Pai pela vida de vocês. Continuem com Deus!

Um grande abraço!

André

Soli Deo Gloria

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Pensamentos sobre a Teologia Reformada (ou preconceito gera preconceito)

Tenho lido e ouvido uma série de opiniões sobre a Teologia Reformada. De odes de adoração que a colocam como salvadora do mundo a críticas que a colocam como uma ideia ultrapassada, elitista e segregacionista. Cá entre nós, nós Reformados temos contribuído pra muito do preconceito que nos cerca. Inclusive destilando nosso preconceito contra os que pensam diferente. Quero aqui colocar alguns pontos que creio que podem ajudar na busca por um tão importante equilíbrio. Farei a exposição por tópicos. Como diz o próprio título, isso nada mais é que uma série de pensamentos transcritos.

Predestinação: Para muitos aqui está toda a razão e sentido do Calvinismo (ou da Teologia Reformada). O problema é que muitos desses se intitulam calvinistas… Ledo engano. A doutrina da eleição/predestinação nunca foi o principal foco nem de Calvino, nem dos reformadores de sua escola nem de reformados propriamente ditos. Essa doutrina nada mais é que uma das consequências do que é sim o foco da Doutrina Reformada: a soberania de Deus. A célebre frase do pensador holandês Abraham Kuyper define bem esse pensamento. “Não ha nada na existência humana que. Cristo não possa dizer: É MEU”. Logo, infere-se logicamente que a Salvação também é uma prerrogativa executada e definida por Deus. Ele soberanamente decide quem Ele salvará. Com que critério? Seu amor. Por que uns e não outros? Aí, honestamente, não tenho nem ideia. No meu caso posso dizer que se Ele não tivesse me escolhido eu teria sérios problemas, pois eu certamente não O escolheria.

 Obsolescência: Outra crítica muito difundida é que o pensamento reformado é obsoleto, que não é mais relevante ao nosso tempo. Se aceitarmos que Aristóteles, 1800 anos distante da Reforma, pode ser relevante até hoje, não faz sentido taxar assim o pensamento reformado. Inclusive, uma pesquisa recente da revista Times coloca o Calvinismo entre as 10 ideias que estão mudando a cultura dos Estados Unidos. Novamente o preconceito é bastante influenciado pelo comportamento de alguns “reformados”. Práticas que faziam sentido há quase 5 séculos não têm como fazer sentido aos nossos tempos. Porém, o conceito era tão a frente de seu tempo que não tem como ser classificado de obsoleto. O incentivo ao desenvolvimento científico e artístico à parte do controle da Igreja é um dos pontos que a humanidade deve aos reformados. O estado Laico (em seu sentido verdadeiro, distorcido nos dias de hoje) também. A educação teve uma evolução sem precedentes como a preocupação em alfabetizar a todos para que pudessem ler a Bíblia. Política, direito, linguística e outras tantas áreas do pensamento também foram altamente influenciadas. O Cristianismo, evidentemente, foi o maior beneficiado. A volta ao foco de doutrinas fundamentais, como a justificação pela fé e a supremacia de Cristo e o resgate da importância das Escrituras foram fundamentais para uma retomado ao Evangelho de Cristo. E esse era o foco. Não criar uma nova teologia, mas, resgatar as verdades que haviam sido esquecidas nas Escrituras.

 Arrogância: Se há algo que não faz o menor sentido para um reformado é a arrogância. Se for manter a coerência com a tradição monergista, que entende a total dependência do homem para poder ter qualquer relacionamento com Deus, um reformado jamais poderia se arrogar de seus méritos religiosos. Evidentemente, não é bem isso que se vê. Um salvo só pode ter entendido realmente a profundidade do que houve com ele se, em profunda humilhação, questionar sempre a Deus: “Por que eu Senhor? Por que logo eu”. Entender que não só a salvação é uma obra exclusiva do Deus Trino, mas também o conhecimento real desse Deus é algo fundamental para a fé reformada. E de que se arrogar se não se tem mérito? O pedinte não tem mérito por esticar o braço pra receber sua refeição de um benfeitor. Quanto mais nós que em relação a Deus estamos num estágio bem inferior ao de pedintes. É evidente que muitos se orgulham de serem eleitos e de conhecerem a verdadeira doutrina. Se não tenho nenhuma capacidade de julgar o primeiro caso, posso garantir que o segundo certamente é mentira. Não, não tem como entender verdadeiramente a obra de Deus e se manter arrogante.

Intelectualismo: De certa forma esse item tem muito a ver com o anterior. De fato os reformados tem uma fama de serem mais intelectualizados. Há varias explicações para isso. Primeiro que há muito mais literatura consistente escrita por reformados que por outras matrizes protestantes. Além disso, as doutrinas reformadas são mais sistematizadas e consistentemente apresentadas que a da imensa maioria de outras matrizes protestantes. Um exemplo é a doutrina pentecostal que acaba sendo associada a movimentos que não tem nada a ver como seus pensamentos pela falta de uma declaração de fé mais clara. Fique claro que não estou querendo dizer quem está correto e sim quem tem mais consistência. Há, também, o lado socioeconômico, preponderantemente no caso brasileiro. Igrejas presbiterianas, batistas particulares e outras que seguem a linha reformada tiveram uma penetração muito mais forte nas chamadas classe média e alta que os pentecostais, por exemplo. O acesso a estudo em um país desigual como o nosso é diretamente proporcional com a renda do cidadão. Isso tem mudado e vemos não só uma diminuição das diferenças sociais no país como uma sensível mudança desses padrões econômicos das denominações. Logo creio que esse problema mudará. O que digo para muitos arminianos que conheço ajudaria a mudar um pouco o cenário: Parem de reclamar e produzam literatura de boa qualidade. Temos gente boa demais no meio arminiano como Alvin Plantinga, Roger Olson, Jorge Pinheiro. Seria deveras valioso para o debate que tivéssemos um contraponto! E sim, lemos outras linhas de pensamento! Lemos tantos os acima relacionados como os irmãos Wesley, luteranos, neo-ortodoxos. (E até alguns liberais… hehehe)

Acho que pra um rascunho já tem bastante coisa. Um dia volto ao tema. Creio que nós reformados merecemos esse preconceito que nos é dirigido pelo modo preconceituoso que muitas vezes tratamos outros irmãos. Que nada mais são que isso; irmãos. Enquanto o que nos une for mais forte que o que nos separa, não há motivo para um pensamento sectário. Defender a fé é algo fundamental, mas, pode virar um ídolo se não houver cuidado. Tem sido valioso para mim conviver com alguns pentecostais. Vejo que muito do que pensava sobre eles era totalmente descabido. Vejo, inclusive, o quão longe estão desse lamentável mundo neopentecostal, cujo nome é uma ofensa aos pentecostais históricos. Precisamos sentar mais à mesa e conversar sobre nossas diferenças. Não só diminuirá nossos preconceitos como será de grande valia para a Igreja de Jesus Cristo.

Soli Deo Gloria

 

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Uma pluralidade meio singular

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Yelena Isinbayeva, bicampeã olímpica, tri mundial e 16 vezes recordista mundial de salto com vara. Pra muitos, a versão feminina de Sergei Bubka, outro mito do salto com vara. Esta semana, mais uma vez Isinbayeva arrebentou com a concorrência e levou seu terceiro título mundial, em sua terra natal, a Rússia. Porém, uma declaração dela acabou ofuscando seu talento. Ao comentar sobre manifestações pró-gays nos eventos, ela deu as seguintes declarações: “É um desrespeito com o nosso país e nossos cidadãos. Nós, russos, somos diferentes do restante da Europa. Temos nossa casa e nossas leis, e todos devem respeitá-las. Inclusive, eu concordo com elas”. “Quando vamos a outros países, tentamos seguir suas regras”. “Estamos com muito medo em relação à nossa nação. Nos consideramos pessoas normais, dentro do padrão. Vivemos com homens ao lado de mulheres e mulheres ao lado de homens. Tudo deve ser assim, é histórico. Nós nunca tivemos problemas assim na Rússia, e não queremos ter no futuro”. Convenhamos, o talento da russa nas pistas de atletismo não foi o mesmo com as palavras. Mas, há algo aí que acho que precisamos pensar.

Há um clamor dos setores mais progressistas por pluralidade na sociedade. Pois bem, quando há uma opinião politicamente incorreta o pessoal entra em parafuso. Não se deseja pluralidade? Por que, então, não aceitar que TODOS tem direito a opinião? Creio que o que temos é um entendimento errado da liberdade de expressão. No meu ponto de vista, todos tem o direito de manifestar sua opinião, seja ela qual for. Entretanto, devem arcar com as consequências disso. Quer sejam jurídicas, quer sejam políticas, quer sejam sociais. E mais, devem estar preparados para uma réplica e devem ter direito a uma tréplica. É assim que devia acontecer. Por que, então, só se luta pelo direito de expressão dos “politicamente corretos”?

Tenho uma posição definida em relação ao homossexualismo. Porém, não tem como negar que Isinbayeva foi infeliz em suas palavras.  Talvez pela falta de domínio do idioma inglês, talvez por se expressar mal ou, porque não, por realmente pensar isso. Pode-se dizer que a opinião dela foi preconceituosa, mas, em nenhum momento incitou a violência contra homossexuais. Além disso, recebeu uma enxurrada de críticas pelo que falou. É assim que funciona uma sociedade plural. Você tem todo direito de ser polêmico. Porém, esteja pronto para ouvir e debater com quem discorda. De preferência sem “ad hominen”. Simplesmente desqualificar quem emite a opinião é algo que acaba com qualquer argumento. Tive a infeliz ideia de ler alguns comentários da notícia das declarações. Um dizia algo como “pra ser preconceituosa assim, só pode ser crente”. Além de usar um “ad hominen”, o comentador atacou preconceito com preconceito. Complicado, não?

Não tem jeito. Uma sociedade madura precisa que progressistas e conservadores tenham direito a opinião. Se acha que a polícia deve ser desmilitarizada, esteja pronto para ouvir que bandido bom é bandido morto. Se é contraio ao aborto, esteja pronto pra explicar porque não adota uma criança que a mãe abortaria. E por aí vai. O confronto de opiniões é sempre válido. Só assim a sociedade cresce. Fico com Voltarie e sua célebre frase: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o ultimo instante seu direito de dizê-la”. Um mundo de uma opinião só é uma ditadura. Que todos tenham direito de dizer o que quiserem. E que aceitem ser questionados e arquem com as consequências do que dizem.

Soli Deo Gloria

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“Por Cristo prontos a sofrer”

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“Com valor! Sem Temor! Por Cristo prontos a sofrer! Bem alto erguei, o Seu pendão, firmes sempre até morrer.” Este é o refrão do hino que fechou o culto especial do domingo, lembrando da igreja perseguida. Esta data foi criada para nos lembrarmos de irmãos espalhados pelo mundo que sofrem por confessar o nome de Cristo. Antes do hino havia acontecido uma pequena encenação em minha igreja, mas, o que me deixou em crise foi a letra de “Pendão Real”. O refrão deste hino é uma antítese do que se prega atualmente na maioria das igrejas evangélicas no nosso país.

Confesso que ao cantar essa música me senti constrangido. Tanto ao pensar nos milhares de irmãos que vivem em locais onde se dizer cristão é uma pena capital quanto ao lembrar-me das pessoas que padeceram pelo Nome história do Cristianismo. A célebre frase de C.S. Lewis, “se você está à procura de uma religião que o deixe confortável, definitivamente eu não lhe aconselharia o cristianismo”, não reflete o cristianismo mainstream de nossa era. Se não se aceita nem sofrer as agruras da vida cotidiana por ter “a marca da promessa”, o que dirá sofrer pelo Evangelho. Fico em dúvida se temos um problema de desconhecimento ou se realmente ignora-se a História do Cristianismo. Sim, pois o sofrimento por Cristo e o dedicar-se de alma ao nosso Senhor sempre foram marca de nossa História.

O que dizer da parte final do texto de Atos 5? “Os Apóstolos saíram do Sinédrio, alegres por terem sido considerados dignos de serem humilhados por causa do Nome.” Os Apóstolos haviam sido presos por pregar o Evangelho. Levados ao Sumo Sacerdote foram interrogados e libertados depois da intervenção de Gamaliel, depois de serem açoitados. A reação não foi de indignação com Deus por permitir que eles sofressem. Tampouco reclamaram com os soldados por estarem “tocando nos ungidos” ou reivindicaram os seus direitos como filhos de Deus. Não. Alegraram-se, pois estavam sofrendo por Cristo, por aquele que os libertou das trevas e os trouxe para a luz.

E quanto a Paulo, o grande evangelista dos gentios? Poderia exigir algo das igrejas que ele plantou. Ou poderia, depois de prisões, torturas, naufrágios e perseguições, preferir gozar o final da vida em paz, colhendo os louros da autoridade que tinha sobre os cristãos gentios. Pelo contrário, já em sua derradeira prisão, indo para a morte, escreve a seu filho na fé Timóteo: “Lembre-se de Jesus Cristo, ressuscitado dos mortos, descendente de Davi, conforme o meu evangelho, pelo qual sofro a ponto de estar preso como criminoso; contudo a palavra de Deus não está presa. Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus, com glória eterna.” Nosso cristianismo lembra o dele?

O sofrimento não foi exclusivo dos Apóstolos. Quando estava a caminho de Roma para ser julgado, Inácio de Antioquia escreveu uma carta à igreja local. Pedia ajuda? Pelo contrário, pediu para que não impedissem que fosse martirizado. Escreveu: “Sou trigo de Deus, e os dentes das feras hão de me moer, para que possa ser oferecido como pão limpo de Cristo.” Um fim semelhante teve Policarpo de Esmirna. Em seu julgamento final o procônsul Antonio Pio chegou a lhe oferecer clemência por sua idade avançada, contanto que negasse o nome de Cristo. Sua resposta? “Eu tenho servido Cristo por 86 anos e ele nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou? Eu sou um crente.”

Talvez por vivermos num contexto totalmente acolhedor a qualquer fé tenhamos dificuldade de entender estes homens e de nos colocarmos em seus lugares. Não hesitamos em dizer que Cristo é tudo para nós e nem pensamos antes de afirmar que topamos qualquer coisa por Ele. Será? Um dos pais apostólicos da Igreja, Tertuliano de Cartago, dizia que “O sangue dos mártires é a semente da igreja.” Estaríamos dispostos a contribuir dessa forma na seara? Difícil saber vivendo no nosso contexto. Vivemos um cristianismo tão confortável onde qualquer obstáculo é chamado de perseguição. No nosso país o cristianismo inspira feriados como o desta semana. Até a novela das 9 terá uma protagonista “evangélica”. Há liberdade para usar as mídias para levantar o pendão (bandeira) de Cristo. Mas, usa-se apenas para pedir dinheiro, atacar os gays, exaltar ”homens de Deus” e criar o lucrativo mercado Gospel. Somos mais de 40 milhões de Evangélicos no Brasil, o segmento religioso que mais cresce nos últimos 20 anos. E no que isso tem refletido? Que bandeira nos caracteriza? Os primeiros cristãos receberam esse nome por parecer com Cristo. E nós? Parecemos com quem?

Por vezes temo que a única maneira da igreja evangélica brasileira se tornar realmente luz em nossa nação é ser perseguida. Sair dessa zona de conforto obtida por ser uma “tendência” do momento para ser uma real contracultura. Temo que seja hora de sermos obrigados a realmente sofrer por Cristo, a precisar de coragem vinda dos céus para professar nossa fé. Espero estar errado, mas, creio que o único meio de o Evangelho deixar de sofrer por conta dos evangélicos é os evangélicos precisarem sofrer pelo Evangelho verdadeiro de Jesus Cristo.

Soli Deo Gloria

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Ser como criança

jesus e crianças

Agua: Transparência que se pode tomar

Branco: O branco é uma cor que não pinta

Céu: De onde sai o dia

Escuridão: É como o frescor da noite

Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus

Paz: Quando

a pessoa se perdoa

Tempo: Coisa que passa para lembrar

Universo: Casa das estrelas

Violência: Parte ruim da paz

As definições acima parecem de algum grande poeta ou mesmo de um filósofo. Algumas guardam uma profundidade enorme na simplicidade em que foram formuladas. Outras, de tão simples, assustam. Quem seria o gênio por trás disso? Ao contrário da maioria das pensatas da internet, sempre atribuídas a mestres das letras, estas definições foram cunhadas por crianças colombianas participantes de um interessante projeto. O livro “Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças” é uma compilação feita pelo professor de educação infantil Javier Naranjo e contém estas definições que têm sido amplamente espalhadas pela web. Vejo adultos, com razão, encantados com a sabedoria destes pequeninos. Mas, o que isso tem a ver com o Reino de Deus? Tudo.

Num dado momento de seu ministério, trouxeram algumas crianças para que Jesus orasse por elas. Os discípulos, verdadeiros adultos, se irritaram e tentaram afastá-las.  “Então disse Jesus: ‘Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas’” [1] Imagino o que poderia ter passado na cabeça daqueles homens. “O que o Mestre quis dizer dessa vez?” Numa cultura que valorizava tento o saber dos anciãos e que nem contava crianças entre seus cidadãos (assim como mulheres), uma frase dessas tinha um potencial altamente intrigante. O que Ele quis dizer?

Vou dizer o que penso disso, sem nenhuma pretensão de ser o dono da melhor interpretação. Certamente Jesus não estava falando sobre pecado. Sim, pois além do pecado adâmico, herdado por todos, é de uma inocência muito grande olhar uma criança como um ser sem pecados. Crianças podem ser cruéis com as outras, basta vermos o que o bullying faz na vidinha de algumas delas. Sabem muito bem serem egoístas, mentirosas, desobedientes… Jesus não falava de uma pureza moral impossível a um humano. Creio que Ele se referia à outra pureza. A uma pureza de pensamento, de conceitos. A uma pureza bem característica do coração ensinável. Creio que Cristo se referia a um modo todo especial de ver o mundo que os pequeninos possuem; um modo lúdico, poético. Crianças não estão contaminadas com conceitos enlatados, com filosofias, teologias e ideologias que acabam direcionando nosso pensamento. Elas não têm medo de dizer o que pensam ou de serem reprovadas pelo pensamento crítico vigente. São naturalmente sinceras. Experimente dar um par de meias como presente de Natal para uma delas e perguntar se ela gostou. Se, com muita boa vontade a boca falar que sim, o olhinho dela vai entregar um decepcionado não.  Estão longe de serem prudentes como as serpentes, mas, bem próximas de serem simples como as pombas.

Sinto que precisamos aprender mais com as crianças, a começar por mim. Digo sem medo de errar que muito de minha formação teológica veio do tempo de criança. Ali conheci um Deus bom. Que “um coração me deu e um sorriso também”. Que deve ser louvado “com todo o ser e com todo o corpo”. Que me deu a Cristo que “me salvou e me deu perdão e agora vive no meu coração.” Que “criou os bichos, com muito carinho, todos para seu louvor”.  Que me deu a “Bíblia, meu livro companheiro”. O Deus que a pequena Ana Milena Hurtado de 5 anos definiu como “o amor com cabelo grande e poderes”. Hoje sei que a parte do cabelo não está correta, mas que o resto é deliciosamente verdadeiro. Deus faz-me como criança!

Soli Deo Gloria

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A sabedoria é um bem maior que o conhecimento

Começo deixando algo claro: não tenho conhecimento de causa pra falar sobre sabedoria. Tive a dádiva de Deus de ter nascido inteligente e, através de muito estudo, tenho uma boa bagagem de conhecimento. Porém, dadas algumas escolhas que fiz e seus resultados (ou falta deles), vejo que não posso ser chamado de sábio. Por mais que só de admitir isso já é um sinal de sabedoria… Quem sabe uma sabedoria adquirida ao longo do tempo, num longo processo que não ocorre da noite para o dia. É evidente que a maioria das pessoas tem alguns sinais de sabedoria, mas daí a ser realmente sábio é um longo caminho.

É muito importante diferenciar conhecimento de sabedoria. Por mais culto que meu pai seja, creio que já devo ter lido mais que ele. Ele sempre destaca que tenho mais conhecimento que ele. Quer saber? Trocaria todo esse conhecimento pela sabedoria que ele tem. E não nos enganemos achando que sabedoria é algo diretamente proporcional à idade. Há muitos tolos de cabelos brancos… Entretanto, o tempo é nosso maior aliado para adquirir sabedoria. Adquirir sim, pois não é algo nato. O escritor de Provérbios diz isso: “É melhor obter sabedoria do que ouro! É melhor obter entendimento do que prata!” ou “Quem obtém sabedoria ama-se a si mesmo; quem acalenta o entendimento prospera”. A sabedoria leva-nos a tomar decisões melhores e a agir de modo correto em diversas situações. A sabedoria nos ajuda a querer obter conhecimento e, principalmente, a saber usá-lo, algo raro atualmente. Escrevo este texto motivado por duas situações que vi/vivi esta semana.

O primeiro momento que me fez pensar foi um post no twitter de um jovem e proeminente blogueiro cristão. Ao criticar a visão política da esquerda ele usou uma série de desclassificações morais das pessoas. Burro, bêbado, terrorista… Logo ele que reclama tanto dos ad hominem se valeu desse tipo de argumento. Tenho minhas restrições ao pensamento esquerdista, quase tão grande quanto ao pensamento direitista. O marxismo não trará cura à todas as doenças, como no famoso quadro de Frida Kahlo. Porém, é uma posição política que merece pelo menos um respeito intelectual, devido a sua formulação histórica. Quer discordar, use argumentos inteligentes e não chulos. Faltou sabedoria na abordagem do ótimo blogueiro. Dali pra frente, qualquer argumentação perdeu credibilidade. Sobrou arrogância ao se referir ao que não concorda. Muitas vezes esse é um enorme obstáculo que o conhecimento sem a devida sabedoria nos proporciona. Um cara de muito conhecimento que tropeçou feio nele.

O segundo momento que me chamou a atenção aconteceu ao final de uma aula sobre Cosmovisão Cristã com o professor Jonas Madureira. Um senhor pediu a palavra. Sua dúvida/observação nem foi muito pertinente ao tema central, mas foi valiosa. Se o professor nos orientava a ler o nosso mundo o pastor deste senhor não o fez. Visivelmente chateado, o senhor contou sobre uma pregação sobre expiação limitada. Disse que ficou escandalizado com aquilo. Sou calvinista de cinco pontos, porém, o ponto que mais tempo demorei a internalizar foi a expiação limitada. Até hoje ainda tenho certo desconforto com isso. O pastor não pregou nada errado, muito pelo contrário! Agora, será que ele leu bem seu auditório? Será que ele os preparou previamente para que recebessem esta complexa doutrina? Conhecimento não lhe faltou, já sabedoria…

Também não devemos confundir o fato de que sabedoria e conhecimento são coisas distintas com um grave erro que acometeu a igreja nos últimos anos: a anti-intelectualidade. Defendeu-se, de forma absolutamente equivocada, que o estudo da teologia e afins era coisa carnal. Segundo estes “pensadores” o importante era o transcendental, a experiência mística com Deus. O atual cenário do evangelicalismo (e também do catolicismo) mostra que estavam errados. E nem é tão difícil de perceber o erro. A revelação de Deus foi dada através de um livro, e um livro que exige estudo. É claro que todos podem entender a Bíblia, mas é impossível fazê-lo sem estudá-la insistentemente, contando com a iluminação do Espírito Santo. A própria Bíblia dá-nos exemplo de homens estudiosos da Palavra e mesmo de outras disciplinas de conhecimento. Paulo era, além de tudo, um intelectual! Logo, não defendo aqui a negligencia ao estudo. Meu ponto é que conhecimento não leva automaticamente à sabedoria. E vou mais longe: muito conhecimento nas mãos de quem tem pouca sabedoria é algo equivalente a dar uma arma na mão de uma criança. Mais cedo ou mais tarde alguém vai se machucar.

O que fica disso tudo é que mais que ser um catedrático em teologia é necessário ser uma pessoa sábia. Estudar é preciso. Mas, sem a sabedoria que vem de Deus, de nada adiantará todo o seu labor teológico. Qualquer bom ateu saberá tanto quanto você. E não deixará de ser ateu. O próprio Diabo conhece muito da Bíblia… O conhecimento pelo conhecimento nada mais é que um hedonismo intelectual que não nos serve para nada. A sabedoria é preciosa e tem um fornecedor único. Mas não se preocupe, Tiago nos dá uma solução perfeita: “Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida”. Esse fornecedor quer muito ver-nos sábios. Antes, precisamos ser humildes para admitir que precisamos que Deus nos dê sua sabedoria. E Ele não tardará em nos atender.

Soli Deo Gloria

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